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Consciência de Latinoamericanidade - Brasileiro é latino-americano

Viajar como a arte de sulear-se: Nosso Norte é o Sul e a América Invertida

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Em 1973 a NASA compartilhou uma foto da Terra vista do espaço, deixando claro que nosso planeta não possui direções como cima e baixo. Assim, vemos na tal foto a América invertida, como Joaquín Torres García havia apresentado 30 anos antes.

Apesar de sermos nativos do Sul, nos guiamos através da norma colonizadora que tem o Norte como sentido de direcionamento. Dedicado às navegações, o Mapa Múndi foi criado com o Norte acima por Gerardo Mercator em 1569, época em que o Norte colonizava o Sul e nas viagens se guiava pela Polaris, a Estrela do Norte.

América invetida vista do espaço pela NASA - Sulear com a América invertida

Mas, em 1991, o físico e etnocientista brasileiro Marcio D’Olne Campos questionou esse guiamento:

Em qualquer referencial local de observação, o Sol nascente do lado do oriente permite a orientação. No hemisfério norte, a Estrela Polar, Polaris, permite o norteamento. No hemisfério sul, o Cruzeiro do Sul permite o ‘suleamento’.

Marcio D’Olne Campos, A Arte de Sulear-se

Ao viajar pela América Latina nós temos a oportunidade de encarar nossa identidade, valorizar nossa cultura e conhecer melhor o nosso passado.

Foi inspirada nos questionamentos de Torres García, de Márcio Campos e nas minhas experiencias viajando desde 2014 pela América Latina que inverti a América Latina no novo logotipo do UMASULAMERICANA, arte criada por Andreza Michel e que marca a nova fase do blog: um guia de latinidades.

A arte de sulear-se

“Cruzeiro do Sul, a constelação fundamental para o ato de ‘sulear-se'”, afirmou Márcio Campos no texto ‘A Arte de Sulear-se’, dando origem ao verbo sulear.

No texto ele questiona a imposição geográfica que, em relação aos pontos cardeais, segue a regra prática de nortear, mas que só serve para quem se situa no hemisfério Norte.

Assim, o ato de sulear é olharmos para o sul, ressignificando a imposição do norteamento no hemisfério Sul, que tem caráter totalmente ideológico enraizado na era das navegações e mantida até hoje. Olhar desde o sul, então, é nosso destino geograficamente determinado.

O termo sulear é um convite a mudança de ponto de vista do mundo como nós o conhecemos – mundo esse pintado literal e figuradamente pelos países considerados centrais.

Mafalda - Tirinha de ironia geo-politica - Mapa de ponta cabeça - Nosso norte é o Sul
Mafalda ironiza o globo terrestre – Fonte: Quino

Em 1992, Paulo Freire fez uso dos vocábulos propostos por Campos em sua obra ‘Pedagogia da Esperança: um reencontro com a Pedagogia do Oprimido’. Ele diz:

“Norte é Primeiro Mundo. Norte está em cima, na parte superior, assim Norte deixa ‘escorrer’ o conhecimento que nós do hemisfério Sul ‘engolimos sem conferir o contexto local”.

A Arte de Sulear-se é então assumir um caminho alternativo, guiado por nós mesmos, dando um novo rumo baseado em nosso contexto latino-americano. Assim valorizamos nossa identidade latina deixando de vez o papel de imitadores. Sulear-se é um vocábulo emancipador e é resistência contra o processo de colonização ainda existente.

Nosso Norte é o Sul e a América Invertida

em 1943 o artista plástico uruguaio Joaquín Torres García compôs um poderoso símbolo de afirmação de uma identidade cultural com sua obra ‘América Invertida’.
América Invertida – Joaquin Torres García

Apesar de o termo ‘sulear‘ ter sido criado por Campos em 1991, em 1943 o artista plástico uruguaio Joaquín Torres García compôs um poderoso símbolo de afirmação de uma identidade cultural com sua obra ‘América Invertida’.

A pintura, que mais parece um desenho de criança, é um questionamento que Torres García se fez: por que nossos referenciais nunca são os do nosso próprio contexto social?

“Na realidade, nosso norte é o Sul. Não deve haver Norte para nós, exceto em oposição ao nosso sul. Portanto, agora nós viramos o mapa de cabeça para baixo, e então temos uma ideia verdadeira de nossa posição, e não como o resto do mundo deseja. O ponto da América, de agora em diante, para sempre, aponta insistentemente para o sul, nosso norte.”

Torres García, Manifesto Escuela del Sur

América Invertida é uma crítica de Torres García a busca constante da globalização para alcançar a homogeneização das nações ocidentais, além da supervalorização de tudo o que é típico do hemisfério norte.

Ou seja, com a criação de uma Escuela del Sur, Torres García, faz um convite à decolonização da América do Sul – que pode ser estendido a toda a América Latina – para que possamos valorizar o que é da nossa cultura ao invés de buscar padrões eurocêntricos, que convenhamos, nunca iremos alcançar. E não alcançaremos pelo simples fato de não sermos a Europa, mas sim o povo do Sul, latino-americanos.

Viajar pela América Latina é sulear-se

Viajar a América Latina é sulear

Crescemos influenciados pelo que era veiculado na TV e no cinema: basicamente filmes, seriados, desenhos infantis e noticiários que retratavam a Europa e os Estados Unidos.

Adotamos o tal ‘sonho americano’ que era só estadunidense, como nosso. Sonhamos com a cidadania europeia, correndo atrás de uma ‘’ancestralidade’’ que mal nos representa. Passamos por inúmeras burocracias para passar as férias nos Estados Unidos.

Então, nosso imaginário social é, até hoje, alcançar o desenvolvimento do hemisfério Norte. Enquanto isso, nosso continente é caracterizado por uma instabilidade secular com inúmeros problemas sociais:

  • Corrupção pública
  • Corrupção de instituições privadas
  • Democracia ameaçada constantemente
  • Instabilidade econômica
  • Extrema desigualdade social
  • Desrespeito aos direitos humanos mais básicos
  • Altos índices de violência
  • Desmatamento florestal e de recursos naturais

Somos um povo resultado da violência sofrida ao longo dos séculos, começando pela invasão europeia, passando pelo extermínio dos povos originários, pelo tráfico de africanos trazidos como escravos e pela guerra da independência, por exemplo.

Ao viajar pela América Latina nós temos a oportunidade de encarar nossa identidade, valorizar nossa cultura e conhecer mehor o nosso passado. Só assim podemos vencer essa dor que expressamos até hoje através desses problemas sociais.

Uma mudança real só acontece com autoconhecimento, porque só podemos tratar dos nossos problemas quando conhecemos a raiz deles. Caso contrário, a América Latina viverá intermináveis ciclos, tendo altos e baixos econômicos, democráticos e sociais.

Autoconhecendo a América Latina

Característica Latina - Despertando latinoamericanidade

Claro, essa não era a minha intenção quando comecei a viajar e a escrever sobre viagens no UMASULAMERICANA, mas acabei entrando sem perceber em um processo que chamo de despertar de latinoamericanidade.

Através das viagens passei a ter um interesse maior na história da América Latina, além de observar e reconhecer nossas expressões culturais. Consegui preencher o vazio existencial através de expressões espirituais ancestrais dos povos originários

A simplicidade dos ribeirinhos do amazonas, o guaraní ouvido nas ruas do Paraguai, a autenticidade das cholas bolivianas, os cânticos xamânicos em rituais de ayahuasca. Visitar o museu da Ditadura no Chile, conversar sobre problemas políticos com argentinos, conhecer os problemas ligados ao tráfico de drogas na Colômbia.

Ao longo de 8 anos venho viajando a América Latina com esse olhar para o Sul proposto por Torres García, mesmo que não intencionado. A questão é que viajar pelo Centro e Sul das Américas é um exercício de autoconhecimento imenso.

Ao conhecer ruínas maias no México ou na Guatemala você tem a oportunidade de conhecer mais sobre a história desse povo dizimado pelos espanhóis. Visitando Machu Picchu e o Vale Sagrado de Cusco você vai conhecer a história dos incas, também exterminados na invasão espanhola. Ao viajar pelo altiplano boliviano você verá a resistência da cultura indigena mesclada à forte imposição católica na colonização. Viajando pela Bahia você saberá mais sobre o processo de escravidão ao qual foram submetidos os negros traficados da Africa e os nascidos no Brasil.

Quanto mais das nossas raízes eu vi, mais entendi meu lugar no mundo. E mais entendi a necessidade de sulear-me, tendo o Cruzeiro do Sul como meu guia. Mais orgulho tive da resistência latino-americana.

Sabe, a vida à beira-rio, as cholas, a ayahuasca ou a língua guaraní estão resistindo a séculos em meio a ditaduras, desmatamentos, narcotráfico e a imposição do hemisfério Norte. 

Somos América Latina, un pueblo sin piernas, pero que camina, oye

UMASULAMERICANA – Um guia de latinidades

Porque brasileiro não se identifica como latinoamericano

Desde que iniciei esse processo de despertar da latinoamericanidade meu sonho é o mesmo de Torres García: uma América Latina unida, dependente e autovalorizada. Sei que isso se dá através de autoconhecimento e tenho esperança que as viagens pela América Latina possam trazer isso a mais pessoas, afinal, essa identidade a ser protegida é coletiva.

Por isso, agora assumo aqui no blog algo que assumi em meu Instagram a algum tempo: um posicionamento político de resistência e de autovalorização, que provoca a latinidade através das viagens.

O novo logotipo, criação da minha amiga Andreza Michel, é uma paráfrase da América Invertida de Torres García, inclusive mantendo o Sol e a Lua da obra original, mas incluindo a América Central e México.

Logotipo América Invertida UMASULAMERICANA
Logotipo UMASULAMERICANA - América Invertida

Aqui no UMASULAMERICANA posso tratar de assuntos com mais profundidade, como nesse artigo que você está lendo. Quero trazer muito além de dicas de viagem e informações turísticas, mas também um pouco de história, cultura e política latina.

O UMASULAMERICANA se torna um guia de latinidades, seja guiando para lugares, seja guiando para sentimentos e reflexões.

Assim, o menu recebe as categorias Pra viajar, Pra Planejar, Pra Inspirar e Pra Pensar. Em ‘Pra viajar’ você encontra informações turísticas sobre os destinos e experiências na América Latina. Já em ‘Pra Planejar’ estão artigos com dicas e informações de organização de viagens. Em ‘Pra Inspirar‘ estarão textos e materiais sobre as expressões culturais latino-americanas. Enfim, em ‘Pra Pensar’ vão estar textos sobre história e reflexões sobre latinidade.

O UMASULAMERICANA, assim como o texto ‘A Arte e Sulear-se’ de Campos, é um convite a mudança de ponto de vista do nosso lugar no mundo e, assim como a obra ‘América Invertida’ de Torres García, é um convite a autovalorização da América Latina.

E então, vamos inverter o mapa e ter o Sul como nosso norte?

A arte de sulear-se viajando pela América Latina
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