verdades sobre voltar de um mochilão

Verdades sobre voltar para casa depois de um mochilão

Quando eu estava planejando meu mochilão pela América do Sul eu achava que minha vida iria mudar completamente. Mas o que realmente mudou? E o que continua igual?

Voltei há menos de dois meses de uma linda viagem que durou 137 dias e já estou vendo muita coisa voltar ao que era e muita coisa que nem mudou.

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A primeira coisa que percebi foi a relação com a família. A distância faz com que nossos pais, irmãos, primos e tios demonstrem mais que fazemos falta.

Toda vez que a gente falava com a família pelo Skype alguém soltava “Volta logo”, “A gente tá com saudades”, “As crianças perguntam de você”.

A gente voltou e não percebemos aquela saudade toda depois do primeiro abraço. A maioria nem se interessou tanto em perguntar coisas sobre a viagem. Como lavávamos as roupas, o que tinha para comer em outros países, se fizemos muitos amigos… Quase nenhuma pergunta, quase nenhum interesse, quase nenhum contato tão intenso quanto os do Skype.

Outra coisa foi a maneira que levávamos a vida em São Paulo, que voltou. Achei que iria ser forte e diferente da maioria das pessoas em São Paulo, mas em menos de dois meses estou procurando trabalho, competindo uma vaga com outras tantas pessoas, preocupada com “que roupa eu vou”, querendo trocar os móveis… Uma vida de consumo e competição que achei que estaria livre. Estou um pouco mudada, porque sei economizar, sei reconhecer quando estou tirando o foco da minha vida e colocando em outro lugar, mas estou de volta a uma vida louca e corrida.

verdades sobre voltar de um mochilão

Quem eu sou hoje é quase igual a quem eu era antes de sair de casa, mas eu achei que voltaria apenas com a mesma cara. Imaginei, de verdade, que os perrengues, que os choques culturais e que a experiência de passar tantos meses longe iriam me transformar em outra pessoa, mas aqui estou eu, quase a mesma. Digo quase, porque uma experiência de viagem te muda sempre, mesmo que em alguns dias. Eu era contra workaholics antes e continuo sendo agora, era a favor de os pais estudarem psicologia infantil antes e ainda sou, eu não era vegetariana antes e continuo não sendo. Continuo tendo TPM. Continuo saindo para comer fora. Até quero comprar um carro novo para colocar no lugar do que eu vendi para viajar. Foi uma ilusão achar que tudo mudaria.

Antes de sair com a mochila de casa eu achei que estava dando um passo muito importante na minha vida, que havia feito uma escolha, mas analisando hoje como voltei e no que estou vivendo, percebo que eu dei uma ‘pause’ na vida que levava e agora que voltei é hora de dar ‘play’. Foi incrível ter feito essa viagem e por mim passaria a vida inteira trabalhando por 6 meses e viajando por outros 6, mas não foi uma escolha decisiva, porque nada mudou de verdade, nada que as pessoas possam perceber. É só mais uma experiência maravilhosa que eu vivi, são histórias que terei para contar para sempre, são lembranças que me alegram, mas é só isso.

verdades sobre voltar de um mochilão

Agora, o que me mudou mesmo foi o fato de não querer levar a vida assim. Por 137 dias me senti livre como nunca antes na minha vida, sendo o mais próximo disso a infância. Eu tinha o mundo aos meus pés e não precisava fazer planos. Vivia à vontade, aberta e enxergava o lado bom das pessoas. Os dias eram meus. Cada um deles! Voltei para casa com vontade de me mudar, de escolher um lugar tranquilo e com planos a longo prazo que, acredito, vão me dar o que busco. Voltei mais criativa, com projetos novos, empolgada e acreditando em mim, porque se eu fui capaz de largar tudo por causa de 5 meses de viagem, do que não serei capaz?


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  • Fernanda cabral alves (2 de março de 2016)

    Realmente a mudança vem da gente, passar meses fora da nossa zona de conforto por escolha é ser valente, ter coragem, coisas que muita gente não tem e nos criticam por ter. Passei 3 anos viajando e tuve que voltar 5 vezes por vários motivos, inclusive por morte de meu irmão e por ter ficado doente. A visão de outras culturas e de outro idioma fica por nosso interesse, ninguém quer saber se você precisou de ajuda em algum momento ou como você lavou a sua roupa. Que você comeu coisas exóticas e até suas roupas foram mudadas, porque quando tomamos essa atitude de viajar por tanto tempo não perguntamos a eles se “podíamos”, simplesmente comunicamos que íamos. A falta de interesse por nossas histórias é fato, pois eles tem essa troca para nos contar. Encontre com um mochileiro e converse sobre suas viagens, se junte com pessoas com os mesmos interesses que você. Ninguém que não tenha feito isso na vida vai entender ou se interessar por uma vida nômade, acumulamos muitas experiências nesses meses ou anos de estrada e com certeza só interessa a nós mesmos. O que você vai fazer com essa experiência só você vai poder responder.
    Para mim, que fiquei mais tempo e fui a 3 continentes, 14 países posso te dizer que muita coisa mudou e ainda me pego planejando a próxima viagem ( pelo menos 3 meses), e assim continuar com o meu processo de mudança e desapego. A família vai sempre estar no skipe e a vida é uma só. Gostaria de voltar a estudar, mas nosso país não favorece e já me formei 2 vezes e tenho especializações. Emprego está difícil, então agora estou num projeto de trabalho voluntário e assim seguem as mudanças de vida. São escolhas e eu estou fazendo tudo que posso para manter o que aprendi com inúmeras pessoas que conheci por aí, alguns viraram amigos de estrada e outros foram pessoas que simplesmente passaram por mim. Aproveitei para me conhecer, esse foi meu principal objetivo e ainda sigo nesta busca por mim.

  • Tânia Macedo (2 de março de 2016)

    Acompanhei boa parte de suas postagens com vontade de também fazer o mesmo e que não fiz quando era jovem. Sempre quis deixar tudo para trás e sair, até que quando completei 50 anos meu namorado ia viajar a trabalho no Caribe e EUA, larguei meu trabalho aqui e segui por 9 meses onde trabalhei com ele a bordo de um iate. Foi uma experiência ótima, porém um ano depois de termos voltado ele quis fazer outra viagem (de férias…rsss) de motorhome pela Patagônia, e larguei meu trabalho aqui novamente e ficamos por mais 10 meses rodando 40.000 km. E tudo que vivi parece tão recente na minha mente, que este ano completo 60 anos e não vejo a hora de me aposentar e sair novamente, agora mais livre mesmo que com algumas limitações para grandes escaladas ou trilhas mais radicais que gosto tanto.
    Por isto tudo, digo a voces que aproveitem cada momento e vivam o melhor, quem gosta de viajar , que procure formas de realizar seu sonho mesmo que não possa ir tão longe.
    Sempre gostei de viajar, isto está no sangue e transmiti para minha filha que desde pequena sempre se organizou para as viagens, acampamentos escoteiros, e agora casada ela e meu genro fizeram um mochilão de 30 dias pela Europa em janeiro, chegaram felizes e eu queria saber de tudo com todos os detalhes mesmo tendo acompanhando quase que diariamente pelo whatsApp.
    Portanto, reforço o que a Fernanda disse sobre compartilhar com pessoas que gostam dos mesmos tipos de viagens, que tenham os mesmos interesses, pois senti algo parecido, com milhares de fotos para mostrar e histórias para contar que para a maioria das pessoas não tinha a mesma emoção.
    Só quem vive estas experiências pode entender e torcer para que venham novas e muitas outras viagens e experiências.

    • Aline Rodrigues (2 de março de 2016)

      Caramba, que demais Tânia. Obrigada pelas palavras. Elas são super importes pra mim e pra quem pensa em fazer o mesmo que que a gente. Muito obrigada ♡

  • Sônia (8 de março de 2016)

    Aline, olá! Voltei de férias há menos de 1 mês e a sensação é que estou trabalhando há um semestre (quero viajar de novo, hehe). Mas essa força que fica após cada viagem, essa coisa que viajar faz conosco (pelo menos comigo): usar as roupas que quiser, andar o quanto eu quiser, conhecer pessoas e estar abertas a elas, estar aberta a todos os temperos, ISSO me faz melhor quando volto, pois consigo valorizar as coisas que tenho aqui no meu “mundo REAL”. Além de eu conseguir trazer as coisas que aprendi nas viagens para o mundo real. Eu acho que fico pouco mudada, fato, mas me sinto mais aberta às experiências, com vontade de explorar mais minha cidade, meu bairro, minha rua e minha casa. Abraços e obrigada por seu relato.

    • Aline Rodrigues (8 de março de 2016)

      Sônia, essa liberdade é a melhor coisa, né! Obrigada pelo comentário. Bom saber que somos um grupo de pessoas, pra quem viajar vai além de sair de férias.
      Bjs

  • Benício (30 de março de 2016)

    Acompanhei toda sua trajetória pelo blog, a volta não deve ser fácil mesmo…Nós precisamos de dinheiro e isso é fato, a não ser que você seja moradora de rua e mesmo assim vai ter que se sustentar de alguma maneira, supondo que você não queira isso só resta trabalhar em algo para ser recompensada, tente encontrar algo dentro dessa experiência que você teve de como ganhar dinheiro sem ser mais um robozinho do sistema em empresa e afins…

    A vida que você levava em São Paulo voltou porque você voltou para o mesmo lugar, então na sua cabeça você vai precisar da mesma grana que antes pra fazer as mesmas coisas, se você tivesse voltado ao Brasil mas em outra cidade talvez a coisa seria diferente.

    Se você gosta de viajar arrume um trabalho e junte dinheiro para fazer a próxima viagem, mas agora de 365 dias, experiencia você já tem, eu por exemplo só funciono se tiver um objetivo a curto prazo pra tudo.

    Você não é mais a mesma, a viagem mudou sua vida pode ter certeza, o fato de você achar que tudo voltou ao normal significa que não voltou ao normal, senão não conseguiria perceber isso, a vida é uma só, tens que seguir em frente!

    A sociedade é uma merda, falam que estão bem e que tudo esta bem mas não estão, 95% é infeliz apenas por não dar um passo a frente.

    • Aline Rodrigues (30 de março de 2016)

      Poxa! Que bacana, Benício. Fiquei tão emocionada. É verdade, se eu estivesse realmente como antes da viagem não poderia ter percebido.
      Obrigada por essas palavras. Ficaram no meu coração. Bjs

  • Jaque (6 de dezembro de 2016)

    Estou na estrada à quase 8 meses, e essa é a primeira vez que eu leio um blog sobre viagens que é sincero, diz de fato o que se passa e não romantiza tudo!
    Parabéns pela transparência e por mostrar como de fato é um Mochilao; lindo, mas não é fácil!

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