Como visitar Chachapoyas no Peru e planejar sua viagem sem agência
Sonhei em conhecer Chachapoyas por muitos anos. O mistério dos sarcófagos de Karajía me perseguia desde que vivi uma experiência espiritual em Cusco, anos antes, e tive uma visão com o lugar. Além disso, é ali que ficam as maiores cachoeiras do Peru. Quando finalmente cheguei, entendi o motivo e, assim, Chachapoyas ganhou um lugar especial no meu coração.
Ainda é um destino pouco conhecido na América do Sul, por isso, Chachapoyas tem aquele saborzinho de segredo. Chamam a região de “a Machu Picchu do Norte“, mas te garanto que ela tem personalidade própria. E o melhor: dá pra conhecer por conta própria, sem agência e combinar com destinos amazônicos do Peru.
E, além dos sítios arqueológicos que contam a história da civilização Chachapoyas, essa região do Peru oferece a paisagem espetacular do encontro dos Andes com a Amazônia, onde a gente pode conhecer as maiores cachoeiras do país.
Nesse artigo do UMASULAMERICANA te ajuda a entender esse destino secreto, como incluir num roteiro pelo Peru e como planejar a viagem sem agência.
Onde fica Chachapoyas no Peru

Pra você se situar no mapa: Chachapoyas fica no norte do Peru, bem longe da rota turística tradicional do Sul (como Lima, Arequipa ou Cusco). A cidade está encravada na chamada Ceja de Selva, uma zona geográfica de transição direta entre as montanhas dos Andes e a bacia Amazônica.
De Lima, Chachapoyas fica a cerca de 1.200 km de distância rumo ao interior. Isso significa um voo curto de 1h30 em turboélice moderno, ou uma longa jornada terrestre cruzando o país e aproveirando pra conhecer outros segredos no caminho, como vou te contar na sessão “Como incluir Chachapoyas no Roteiro pelo Peru“.
É justamente essa localização isolada, a 2.335 metros de altitude, que cria um cenário único: montanhas altas cobertas por uma mata verde e abundante. O clima é ameno e agradável o ano todo, nada daquele frio cortante do altiplano, como em Huaraz ou Puno, justamente pela influência do ar úmido da selva.
A cidade em si é pequena, pacata e charmosa, com um centro histórico colonial e uma praça bem movimentada. Do centro da cidade saem os transportes pra quase todos os destinos que vou sugerir neste guia pra você conhecer Chachapoyas por conta própria.
Quem foram os Chachapoya antes dos Incas

Pra entender a região, primeiro é preciso entender o povo que deu nome a ela, certo?
Os Chachapoya foram uma civilização pré-inca que se desenvolveu entre os séculos 8 e 15, bem na transição entre os Andes e a Amazônia. Dizem que o nome tenha sido dado pelos Incas e significa, em quechua, algo como “povo das nuvens” ou “guerreiros das nuvens”, uma referência direta à neblina que cobre esse território.
Viviam espalhados em assentamentos lá no alto das montanhas, entre 2 e 3 mil metros de altitude, cercados pela floresta nublada. Não é à toa: essa posição garantia proteção natural contra invasores e domínio estratégico sobre o vale e estava profundamente ligada à sua cultura fúnebre.
A relação dos Chachapoya com a morte era profunda

Tinham um sistema funerário super elaborado. Eles mumificavam seus mortos e os guardavam diretamente nas encostas verticais de penhascos gigantescos em sarcófagos e mausoléus, como vi em Karajía e Revash. Pessoas simples eram enterradas dentro de casa, mumificadas dentro das paredes, como encontraram evidencias nas ruínas de Kuélap, que também visitei.
A cultura arquitetônica era circular, bem diferente da estrutura retangular dos Incas, mas igualmente construída por pedras. Também se destacavam na cerâmica e nos tecidos
E como acabou essa civilização?

Bom, além de enterrar seus mortos, os Chachapoyas também tinham a guerra como parte da cultura e eram temidos por serem bons guerreiros, tendo resistido a varias investidas dos Incas, que estavam expandindo o império.
Numa dessas investidas, porém, os Incas, liderados pelo imperador Túpac Yupanqui, venceram e dominaram os Chachapoya. Isso rolou por volta do ano 1470 (ou 1475, dependendo da fonte histórica).
Só que a dominação nunca foi tranquila. Os Chachapoya eram fortemente rebeldes e organizaram várias revoltas contra os Incas ao longo dos anos. Foi quando os espanhóis chegaram na década de 1530. Os Chachapoya decidiram se aliar a eles pra tentar se libertar de vez do domínio incaico.
Depois eu conto mais essa história aqui no UMASULAMERICANA, num artigo inteirinho dedicado a essa civilização!
O que fazer em Chachapoyas: natureza e história pré-colombiana
Fazendo base na cidade de Chachapoyas, você pode partir pra visitar vários desses pontos que mencionei. Deixo aqui uma seleção de experiências que recomendo pra você conhecer a história da civilização e vivenciar a natureza única da região:
Fortaleza de Kuélap, a Machu Picchu do Norte

Kuélap é a grande fortaleza dos Chachapoya. Foi erguida no topo de uma montanha, a mais de 3.000 metros de altitude, com muralhas de pedra que chegam a 19 metros em alguns trechos. É imenso, até parece continuação da montanha.
E, apesar de ser considerada uma das construções pré-colombianas mais impressionantes da América do Sul, segue bem menos visitada que Machu Picchu, em Cusco.
A importância de Kuélap está no que ela revela sobre os Chachapoya. Era um centro cerimonial, defensivo e habitacional, com centenas de estruturas circulares distribuídas dentro das muralhas. Estar lá dentro é entender a escala do que esse povo construiu, isolado no alto das montanhas, muito antes dos incas existirem como civilização.
Kueláp, dos Chachapoyas é quase mil anos mais velha que Machu Picchu, dos Incas!
Quando estiver lá, recomendo que você preste atenção nos frisos em zigue-zague e losangos que decoram algumas construções. Você vai ver também a disposição das estruturas circulares e a vista do vale, que se abre logo na entrada.
Eu fui por conta própria, sem agência. Hoje em dia, não precisamos mais caminhar horas de subida como antigamente. Existe um teleférico que cruza o vale inteiro até a entrada da fortaleza em poucos minutos. A paisagem durante o trajeto já vale a visita sozinha. Tem guias disponíveis na porta, então dá pra contratar um ali mesmo, sem planejamento prévio.
Se você prefere ir com um tour guiado, transporte saindo da hospedagem incluído, na GetYouGuide encontrei uma opção muito bem avaliada e acessível.
Catarata de Yumbilla: a cachoeira mais alta do Peru

Antes de falar da Gocta, preciso te contar sobre a Yumbilla. Afinal, grande parte das pessoas nem sabe que ela existe, mesmo que ela seja ainda maior.
Com cerca de 895 metros de queda, distribuídos em quatro saltos, a Yumbilla é considerada uma das cachoeiras mais altas do mundo. Ou seja, supera a própria Gocta. Fica perto do povoado de Cuispes, próximo a Pedro Ruiz, e o acesso exige uma caminhada mais exigente, feita com guia local que você pode reservar por aqui.
Eu não cheguei a conhecer a Yumbilla nessa viagem. Fica registrada aqui como motivo pra eu — e talvez pra você — voltar. Esse tipo de destino confirma que Chachapoyas ainda guarda segredos que nem o próprio Peru turístico conhece direito.
Catarata de Gocta: uma das cachoeiras mais altas do mundo

A Gocta é, provavelmente, a cachoeira mais famosa da região. E por um bom motivo: com 771 metros, está entre as mais altas do mundo, dividida em duas grandes quedas.
O caminho até lá começa num dos povoados vizinhos, geralmente San Pablo ou Cocachimba. Segue por uma trilha de nível moderado baixo, então dá pra fazer sem experiência avançada de trekking.
O clima durante a caminhada costuma ser agradável. Já a vegetação ao redor é de um verde intenso, bem diferente das paisagens peruanas que estamos acostumadas a ver em fotos de viagem. Aqui é floresta nublada de verdade.
Chegar até a base da queda d’água traz uma sensação de vertigem boa. Você sente a brisa gelada que ela solta e vê aquela coluna de água descendo de um ponto que a gente mal consegue enxergar. É uma experiência sensacional!
Sarcófagos de Karajía: o que são e como visitar

Karajía foi onde eu me senti mais realizada em toda a viagem. É que foi isso que aparecu pra mim na visão que tive em Cusco. Cheguei lá completamente sozinha, sem ninguém mais no mirante. Aquele silêncio me permitiu ficar bastante tempo só observando, imaginando como os Chachapoya teriam construído aquilo na parede da montanha, e por quê.
Fiquei tentando adivinhar como teria sido a cerimônia de colocar um corpo ali, suspenso, voltado pra aquele vale específico.
Os sarcófagos de Karajía são estátuas funerárias de mais de dois metros de altura, moldadas em argila e madeira, com rostos esculpidos. Em alguns casos, têm crânios humanos no topo — possivelmente de inimigos ou troféus de guerra. Ficam posicionados numa cavidade natural do penhasco, a dezenas de metros do chão, num lugar praticamente impossível de alcançar sem equipamento. É bizarro de misterioso!
O significado funerário está ligado ao status. Acredita-se que ali eram sepultados líderes ou pessoas de importância dentro da comunidade Chachapoya.
E a relação com a paisagem não é acidental: os sarcófagos olham pra um vale amplo, como se ainda estivessem vigiando o território. É como se reforçassem essa ideia de proteção e continuidade, mesmo depois da morte.
Mausoléus de Revash: os túmulos suspensos dos Chachapoya

Revash é outro conjunto funerário Chachapoya, formado por pequenas construções em forma de casinhas. São pintadas com desenhos em tons de vermelho e branco, encaixadas num penhasco de difícil acesso. Não à toa, os primeiros exploradores chamaram o lugar de “o Machu Picchu dos mortos”.
A interpretação mais aceita é a de que ali eram sepultados membros importantes da elite Chachapoya. Ou seja, segue a mesma lógica de Karajía: lugares altos, protegidos, voltados pra paisagem.
O que comer em Chachapoyas: pratos típicos da região

A comida de Chachapoyas carrega a mesma mistura de mundos que define a região. Ingredientes andinos encontram ingredientes amazônicos na mesma panela.
Vale procurar o purtumute, um ensopado tradicional de feijão e milho e temperos locais. Pode provar também a cecina com tacacho, uma combinação de carne de porco salgada e seca com bolinhos de banana verde amassada, bem típica dessa transição entre Andes e Amazônia.
Os juanes e as humitas também sãp clássico locais, que você pode encontrar nos Mercados ou vendidos pelas senhoras na praça. Tem também o famoso queso mantecoso de Chachapoyas, um queijo cremoso que virou praticamente um símbolo da região e costuma ser vendido em pequenas rodas nas feiras locais.
Pra beber, não pode faltar a chicha de jora, um fermentada de milho que funcionando tecnicamente como uma cerveja artesanal de milho maltado. Vale a pena conhecer os doces feitos com aguaymanto, uma frutinha ácida típica da região andina.
Se você gosta de café, aproveite: a região Amazonas produz cafés de altitude bem interessantes, cultivados justamente nessa faixa de transição entre montanha e floresta.
Informações práticas para viajar para Chachapoyas

Acredito que você esteja ainda mais convencido a visitar essa região e suas belezas naturais e históricas. Então, vou compartilhar com você as primeiras informações importantes pra tua viagem.
Como chegar a Chachapoyas
Chachapoyas fica numa posição estratégica, bem na fronteira entre os Andes e a Amazônia. Por isso, existem várias portas de entrada possíveis, dependendo do resto do seu roteiro.
De avião, o jeito mais rápido é voar até Chachapoyas em avião pequeno, mas pode considerar também Jaén de avião convencional e seguir por terra até Chachapoyas. De ônibus, dá pra chegar direto de Lima, mas a viagem é muito longa e só recomendo se for incluindo outras paradas no caminho.
Se você está vindo da rota amazônica, como de Iquitos ou Tarapoto, Chachapoyas vira uma ponte natural entre a selva e os Andes do norte.
Posso te ajudar a definir a logística e a organizar o roteiro através da consultoria ao vivo.
Melhor época para visitar Chachapoyas
O clima na região é ameno o ano todo. Porém, os meses de maio a setembro costumam ter menos chuva, o que facilita as trilhas até as cachoeiras e sítios arqueológicos. Por outro lado, na época de chuva as cachoeiras de Gocta e Yumbilla costumam ter mais vasão e gerar mais impacto no na experiência.
Se você quiser viver a cultura local com ainda mais intensidade, vale organizar a viagem pra coincidir com o Raymi Llaqta. É a grande festa dos Chachapoya, celebrada na primeira ou segunda semana de junho, com desfiles, danças típicas de cada província da região e comida tradicional tomando conta das ruas da cidade.
Quantos dias ficar em Chachapoyas
Depende muito da sua disponibilidade, claro. Ainda assim, recomendo pelo menos 2 dias pra dar conta do essencial.
Idealmente, reserve uns 4 dias. Assim, você consegue incluir os passeios com calma, sem correria e ainda sobra um tempo pra simplesmente estar na cidade, sentindo o ritmo do lugar.
Onde se hospedar em Chachapoyas
A cidade tem opções pra todos os bolsos. Existem hostels com quartos compartilhados, uma boa forma de conhecer outros viajantes e trocar dicas de trilha, além de hostals mais simples e hotéis um pouco mais estruturados.
Nos povoados menores, próximos das cachoeiras, também dá pra encontrar hospedagens familiares simples. É uma boa forma de se aproximar da vida local.
Pra pesquisar por conta própria e reservar tua acomodação em Chachapoyas, recomendo usar as principais plataformas do mercado de acordo com o seu perfil de viagem:
- Hotéis.com: Boa alternativa pra pesquisar hotéis, pousadas e acumular noites no programa de fidelidade.
- Booking.com: Excelente opção pra comparar pousadas locais, hotéis-boutique e cabanas privativas na região.
- Hostelworld: A melhor ferramenta pra quem busca mochilar, encontrar hostels sociáveis ou garantir vagas em quartos compartilhados.
Como se locomover em Chachapoyas
Eu usei transporte público saindo dos terminais locais pra chegar até os diferentes pontos da região. É barato, funciona bem e ainda é uma forma de viajar mais perto de como as pessoas locais se deslocam no dia a dia.
Mas se você prefere tours guiados e com itinerários casados, que conseguem aproveitar mais de um lugar por dia, recomndo a plataforma GetYourGuide e a agência Civitatis, que sempre trabalham com guia locais e credenciados.
Quanto custa viajar para Chachapoyas
Pra te dar uma ideia de orçamento:
- Comida: a partir de 15 soles por refeição
- Transporte local: entre 5 e 15 soles por trecho
- Tour guiados: a partir de 145 soles
- Hospedagem: a partir de 19 soles em quarto compartilhado, e por volta de 90 soles em quarto privado
Cuidados essenciais para viajar a Chachapoyas
Leve dinheiro em espécie sempre que for pros povoados menores. Afinal, nem todos têm caixa eletrônico. Você pode retirar dinheiro no centro de Chachapoyas usando o cartão global da Wise, que tem carteira em Sol Peruano. A conta é gratuita, segura e usa o câmbio comercial, que é melhor que o turismo das casas de câmbio.
É essencial viajar com seguro viagem, pois você vai viajar por uma região de natureza e incidentes podem acontecer, como uma torção ou uma picada de insetos. Claro que a cobertura também depende muito do roteiro de viagem, mas recomendo se atentar pra assistência médica e odonto, repatriação e cancelamento de viagem. Minha seguradora é a Real Seguros e pago menos de R$8 por dia. Use o código UMASULAMERICANA e garanta teu desconto.
Repelente pode ser necessário em alguns pontos, então sempre tenha na bolsa, assim como protetor solar e labial.
Como incluir Chachapoyas no roteiro pelo Peru

Pra mim, Chachapoyas não é só um destino fechado em si mesmo. É a porta de entrada perfeita pra uma aventura pela Amazônia peruana ou o final de uma viagem fascinante pelo Norte do país.
Depois de conhecer a região, dá pra seguir viagem rumo a destinos como Tarapoto e a Reserva Nacional Pacaya Samiria, aprofundando cada vez mais essa transição entre montanha e floresta.
Ou então, chegar a Chachapoyas depois de fazer as trilhas de alta montanha em Huaraz e de pegar o mar com caballitos de totora em Huanchaco, completando uma viagem Andes x Pacifico x Amazônica e conhecendo outras civilizações, como a Chavín de Huantar, a Moche e a Chumú.

Na minha ultima viagem pelo Peru, que durou 5 meses, por terra desde o Lago Titicaca e passeio por todos esses lugares que mencionei. Inclusive fiz trekking de 4 dias em Huaraz e naveguei por 5 dias dentro da Pacaya Samiria de barco a remo, duas das experiências de viagem mais intensas que já vivi no Peru.
Terminei a rota na fronteira entre Peru, Brasil e Colômbia, passando por Iquitos e vivendo a experiência de um barco lento, dormindo em rede em meio ao rio.
Não vou te entregar esse roteiro pronto aqui. Porque cada jornada dessas precisa ser desenhada pra combinar com o seu tempo, seu orçamento e o tipo de experiência que você está buscando.
Mas com muito amor posso te ajudar a planejar uma viagem que conecta território, história e vivência real.
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Como planejar seu roteiro pelo Peru

Viajei pelo Peru 4 vezes, de ponta a ponta. Conheci cada cantinho em diferentes épocas do ano e conhecendo rotas além do circuito tradicional. Essa vivência no terreno me deu um domínio prático sobre a logística real do país, aquela que as agências de pacotes engessados não mostram.
Como consultora de viagens especializada em América do Sul desde 2018, construo o seu itinerário junto com você. Numa reunião ao vivo, definimos cada detalhe: da escolha dos atrativos e rotas de transporte mais eficientes até os pontos de hospedagens mais estratégicas e seguras.
Também te guio nas decisões práticas que fazem toda a diferença: como levar e converter dinheiro no Peru, qual o melhor seguro viagem para o seu perfil e como planejar seus deslocamentos sem depender de passeios caros ou encarar ciladas.
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