Por que os andinos são baixinhos? Entenda a incrível adaptação do corpo à altitude
Você já reparou que os andinos são mais baixinhos?
Na minha primeira viagem ao Altiplano Andino, percebi uma coisa interessante. Com 1,54 m, sempre me considerei baixinha no Brasil. Mas por lá, eu estava na média. Era até mais alta que muita gente, inclusive alguns homens.
Fiquei curiosa e, então, fui pesquisar o porquê as pessoas eram baixinhas. E a resposta que encontrei é mais interessante do que parece e, por isso, resolvi compartilhar aqui no UMASULAMERICANA.
Tem a ver com o ar. Aquele ar fino, rarefeito, que faz a gente perder o fôlego em lugares como Cusco, em La Paz ou Salar de Uyuni, por exemplo. O mesmo ar que torna qualquer trilha de alta montanha, como o ataque ao Aconcágua ou as caminhadas em Huaraz, um desafio à parte.
Esse ar moldou, literalmente, o corpo de quem nasceu e cresceu nos Andes. E a ciência explica como e porque povos andinos são mais baixinhos.
Por que falta tanto ar quando a gente sobe nos Andes

Quanto mais alto a gente chega, menos oxigênio a gente consegue captar durante a respiração. É por isso que a gente sente alguns sintomas quando tá viajando por destinos de altura. O coração acelera, a respiração é mais ofegante e a cabeça lateja nos primeiros dias em altitude.
Resumindo, isso acontece porque a pressão atmosférica cai conforme a altitude aumenta. O oxigênio continua presente na mesma proporção no ar, mas as moléculas ficam mais espaçadas. Então, com menos pressão empurrando o ar para dentro dos pulmões, cada inspiração absorve menos oxigênio do que ao nível do mar, exigindo que o corpo trabalhe dobrado para compensar a falta de oxigenação.
Mas, para quem vive nos Andes, o desafio é outro: nascer e crescer respirando esse ar rarefeito. E o corpo humano, sempre eficiente, encontrou um jeito de se virar.
Ao longo de milhares de anos de evolução, as populações andinas desenvolveram adaptações biológicas e fisiológicas únicas que lhes permitem assim viver e se exercitar na altitude com total conforto.
Por que os povos andinos costumam ser mais baixinhos?

A primeira resposta do corpo à falta de oxigênio foi desacelerar o crescimento em altura. Isso já explica muito porquê andinos são mais baixinhos que outros povos indígenas da América.
Estudos com crianças quéchuas mostram algo interessante. Elas crescem de forma mais lenta e prolongada do que crianças que vivem no nível do mar. Então, o estirão da adolescência chega mais tarde e é mais discreto.
Pesquisas mais recentes também relacionam a ancestralidade andina a pernas e braços mais curtos. Quanto mais forte essa ancestralidade genética, menor tende a ser a estatura — principalmente em altitudes elevadas.
Na prática, é uma troca. A energia que o corpo usaria para crescer em altura é direcionada então para outra prioridade: respirar melhor.
O peito largo: a adaptação mais visível de quem vive em altitude

Nessas condições de altitude, a evolução se permitiu fazer essa troca adaptativa inteligente: menos estatura x tórax mais largo.
Nos Andes, a caixa torácica se desenvolve mais rápido e se torna assim mais larga e mais profunda. Muita gente descreve esse formato como “peito em barril”.
É que um tórax maior significa mais espaço para os pulmões. Ou seja, povos andinos têm a capacidade de captar o pouco oxigênio que tem no ar rarefeito.
A pesquisadora Cynthia Beall, uma das maiores especialistas no assunto, estudou esse fenômeno por décadas. Segundo ela, esse tórax largo nasce principalmente do próprio ambiente de crescimento.
Ou seja, não é uma característica física que apareceu do nada, mas é o corpo se moldando à altitude desde criança. E há milhares de anos, o que já se tornou uma herança genética, passada de geração a geração a centenas de milhares de anos.
Sangue mais grosso e coração mais forte: as outras duas adaptações

O peito largo é a mudança mais visível, mas não é a única. A primeira das outras adaptações está no sangue.
Quem vive em altitude tem mais hemoglobina e mais glóbulos vermelhos do que quem vive no nível do mar. Ou seja, o corpo andino possui mais meios para transportar o pouco oxigênio disponível até os músculos e o cérebro. O sangue fica um pouco mais grosso e bem mais eficiente.
A segunda está no coração. Para bombear esse sangue mais denso, o lado direito do coração das populações andinas costuma ser mais forte. É quase um coração de atleta, só que natural, moldado não pela academia, mas por gerações inteiras vivendo em grandes altitudes.
Assim, aqui deixo uma distinção importante. Aclimatação e adaptação genética não são a mesma coisa. A gente, como turista, se aclimata em poucos dias, temporariamente. Quem nasceu nos Andes já vem de fábrica ajustado para aquele ambiente, que é fruto de mais de 10 mil anos de gente vivendo na cordilheira.
Em resumo, os povos andinos são mais baixinhos por uma questão adaptativa, mas não apenas sua altura foi alvo da evolução nos Andes:
- Tórax e pulmões maiores: Proporcionalmente, os povos nativos dos Andes possuem uma caixa torácica mais larga e maior capacidade pulmonar, o que permite inspirar um volume maior de ar a cada respiração.
- Corações e vasos eficientes: O sistema cardiovascular é altamente eficiente no transporte de sangue sem exigir um esforço excessivo do coração, garantindo que o oxigênio chegue com facilidade aos tecidos.
- Hemoglobina otimizada: O corpo mantém uma concentração de hemoglobina (a proteína que carrega o oxigênio no sangue) ajustada de forma ideal para captar até as menores frações de oxigênio disponíveis, sem deixar o sangue excessivamente denso.
- Eficiência celular: As próprias células e mitocôndrias são mais eficazes no uso do oxigênio captado, produzindo energia de maneira extremamente otimizada.
Os corpos andinos baixinhos e largos explicados pela ciência peruana

Não fui a primeira pessoa a observar que os andinos são mais baixinhos. Cientistas perunaos, no século 20, iniciaram estudos sobre essas características .
Em abril de 1927, o médico Carlos Monge Medrano organizou, com Alberto Hurtado e outros colegas da Universidad Nacional Mayor de San Marcos, a primeira expedição científica peruana às zonas andinas de La Oroya, Ticlio e Morococha. O objetivo era entender, de fato, o que a altitude fazia com o corpo humano.
Dali nasceu o Instituto de Biología Andina (INBA). Décadas depois, um estudo foi então batizado como “forma y función del tórax” (1954), assinado por Monge. Foram cientistas andinos, estudando o próprio povo e o próprio território, que finalmente deram nome científico a algo que a gente pode observar sem compreender.
E até julgar, pois entender diferenças físicas e “raciais” é ciência pura! Ou seja, racismo é ignorância.
Andes x Himalaia: a mesma altitude, corpos diferentes
Outro achado curioso de Cynthia Beall: nem toda adaptação à altitude é igual.
Os tibetanos, no Himalaia, por exemplo, também vivem sob condições extremas. Mas o caminho evolutivo deles foi outro. Em vez de desenvolver esse peito largo, a adaptação deles é mais genética e metabólica.
Ou seja: não existe uma única “solução” para o mesmo desafio. Cada povo, com sua própria história e seu próprio tempo de ocupação do território, encontrou seu jeito de sobreviver lá em cima.
O que essa curiosidade muda na hora de viajar pelos Andes

Saber disso muda nosso olhar. Pelo menos de quem gosta de viajar observando a vida local e de aprender novas formas de existir.
Além disso, muda a maneira como você vai compreender teu próprio corpo durante uma visita ao Altiplano Andino.
Aquela falta de ar que você sente chegando em Cusco, em Puno ou no Altiplano boliviano não é fraqueza. É o seu corpo, sem gerações de adaptação, tentando lidar em tempo real com algo que os povos andinos carregam na própria estrutura física.
É esse tipo de camada, histórica, biológica, cultural, que transforma uma viagem comum em uma experiência de verdadeira imersão no território.
Melhores destinos do Altiplano Andino
Se essas informações te despertou curiosidade, é sinal de que o Altiplano precisa entrar no seu roteiro. Alguns destinos concentram tudo isso: altitude, história e povos que aprenderam a viver lá em cima.
Cusco e Machu Picchu, no Peru, são a porta de entrada mais clássica. Cusco fica a mais de 3.400 m, e já ali a respiração muda. Machu Picchu, a cidade perdida dos incas, é o ponto de maior interesse de qualquer viagem pelos Andes.
O Lago Titicaca, entre Peru e Bolívia, é o lago navegável mais alto do mundo. Suas ilhas flutuantes dos Uros e comunidades como Taquile mostram como a vida segue firme mesmo a mais de 3.800 m.
No lado boliviano, o Salar de Uyuni é puro deslumbre: o maior deserto de sal do planeta, a quase 3.700 m de altitude, com um efeito espelho que confunde céu e chão, a depender da época do ano.
Já o San Pedro de Atacama, no Chile, mistura deserto e altitude. Dali saem excursões para gêiseres, lagoas altiplânicas e vulcões que passam dos 5.000 m.
Por fim, Jujuy, no norte da Argentina, entrega o Altiplano com cara própria: a Quebrada de Humahuaca, as Salinas Grandes e cores de montanha que parecem pintadas à mão.
Inclusive, é possível conhecer todos esses lugares numa mesma viagem, numa das rotas mais intensas que já desenhei pelos Andes. Travessias em regiões remotas, onde a altitude e o contato direto com as comunidades locais pesam mais do que qualquer roteiro turístico convencional. São experiências que não cabem em um post, mas que têm espaço reservado na consultoria de viagens do UMASULAMERICANA, para quem quer ir além do óbvio na cordilheira.
Referências
- Frisancho, A. R. & Baker, P. T. (1970). Human growth and development among high-altitude populations
- Pomeroy, E. et al. (2015). Ancestry and altitude in body proportions
- Beall, C. M. Growth and Development of Andean High Altitude Residents; Two routes to functional adaptation: Tibetan and Andean high-altitude natives
- Bigham, A. et al. (2009); Brutsaert, T. & Parra, E. (2019)
- Monge Medrano, C. (1954). Aclimatación en los Andes: antropología fisiológica comparada del hombre del altiplano (forma y función del tórax)
- Cieza de León, P. Crónica del Perú (1553); Inca Garcilaso de la Vega. Comentarios Reales (1609); Cobo, B. Historia del Nuevo Mundo (séc. XVII)















0 Deixe teu comentário