Travessia do Deserto de La Guajira: uma expedição única no extremo norte da Colômbia
Dez anos depois de iniciar minha jornada na América do Sul na Terra do Fogo, no extremo sul, cheguei no extremo norte e vivi alguns dos dias mais especiais da minha vida no Deserto de La Guajira, cruzando junto ao Caribe as terras indígenas Wayuu por 3 dias. Foi inesquecível!
O Deserto de La Guajira é onde o continente sulamericano termina! Entre dunas douradas e o azul do Caribe, existe uma travessia de vários dias feita de 4×4. A gente atravessa pelo território Wayuu e dorme no acolhimento das rancherías, vivenciando assim uma das culturas originárias mais resistentes do continente.
La Guajira fica no extremo norte da Colômbia, numa península que abriga Cabo de la Vela e Punta Gallinas, o ponto mais setentrional de toda a América do Sul. Não é um destino turístico convencional: é uma expedição em território indígena autônomo, que exige preparo, respeito e flexibilidade de tempo.
Neste artigo do UMASULAMERICANA vou te contar tudo o que você precisa saber pra viver essa travessia no Deserto de la Guajira. Deixo também o breve relato pessoal de uma noite que ficou marcada: uma roda de conversa, à luz de fogueira, com uma mulher Wayuu.
O mágico Deserto de La Guajira

O Deserto de La Guajira é um deserto tropical costeiro, combinação rara em qualquer continente: dunas de areia dourada, vegetação semiárida de cactos e arbustos espinhosos, um calor intenso cortado por ventos fortes e, tudo isso, derretendo direto no Mar do Caribe. Parece mágico, né?
Mas é a matemática da natureza sulamericana atuando. A paisagem desértica que se estende por vários quilômetros é obra dos ventos alísios, massas de ar que sopram de forma constante em direção à linha do Equador.
Por soprarem paralelos à costa, esses ventos acabam empurrando a água quentinha do Caribe pra longe, fazendo com que as águas profundas e muito frias subam pra superfície. Esse processo diminui a evaporação local, o que afasta a umidade e impede as chuvas de caírem nesse cantinho de mundo.
À medida que a gente avança pela Alta Guajira, a paisagem vai se transformando. O ponto de partida costuma ser o místico Cabo de la Vela, mas a estrada de terra leva muito além.
De repente, a areia amarelada dá lugar a um solo de terra avermelhada e falésias incríveis, criando um labirinto de cores quentes que levam direto ao Pilón de Azúcar, um cerro sagrado pra os indígenas que dá palco pra gente ver aquela imensidão lá de cima.
E a travessia continua subindo até o topo do mapa, onde estão as surpresas mais impressionantes da expedição. É lá que ficam as imensas Dunas de Taroa, montanhas gigantescas de areia que despencam direto nas ondas do mar, e o isolado farol de Punta Gallinas, o ponto mais extremo da nossa jornada.
Fica na península de La Guajira, norte da Colômbia, fronteira com a Venezuela. Assim como a própria natureza, é um território indígena que não se limita à fronteira nacional entre os dois países. Isso quer dizer que tanto o deserto quanto a cultura Wayuu foram atravessados pelos acordos que dividem a terra em nações e estão presentes dos dois lados dessa linha imaginária.
Quem são os indígenas Wayuu

Depois de conhecer os diversos povos tradicionais da América do Sul, finalmente conheci os Wayuu, o maior povo indígena da Colômbia. Ele representa cerca de 20% de toda a população indígena do país. Vivem organizados em rancherías, pequenos núcleos de casas de barro, palha e cacto, sempre distantes umas das outras pra que os rebanhos de cabras de cada clã não se misturem.
A língua desse povo imenso é a wayuunaiki, da família Arawak (ou Aruaque), a grande voz do Caribe, sendo uma das maiores e mais difundidas famílias linguísticas de toda a América.

A organização social é matrilinear: a pessoa pertence ao clã da mãe, e é o tio materno, não o pai, quem exerce autoridade dentro da família. Achei isso bem curioso. Existem cerca de 30 clãs, e os conflitos entre eles são resolvidos pelo pütchipü, o “palabrero”, responsável por mediar disputas através da palavra, sem violência.
Aprendi isso e muitas outras coisas durante a visita às rancherias onde a gente dorme, onde as anfitriãs wayuu fazem questão de contar pra gente sobre a cultura delas.
Também é dos Wayuu a mochila Wayuu, artesanato que virou símbolo da Colômbia mundo afora, mas que carrega um significado que vai muito além do souvenir: é sustento econômico e transmissão cultural entre várias gerações de mulheres.
O que fazer no Deserto de La Guajira

Uma coisa importante sobre essa região do Caribe colombiano, é que não é um passeio turístico como os outros. Não existem resorts, calçadões e beach clubs no Deserto de La Guajira. Não é um destino cheio de distrações pra turistas, mas sim autenticidade pura!
O que existe em La Guajira é uma surpresa, algo que ninguém espera de uma viagem pela Colômbia, com paisagens tão únicas, que a gente até esquece a nacionalidade do chão que a gente tá pisando. Pra quem gosta de experiências imersivas e fora do padrão, o Deserto de La Guajira é um destino certo!
A travessia avança da Baixa Guajira, mais próxima da civilização, em direção à Alta Guajira, onde o isolamento é quase total. Conforme o 4×4 segue, a paisagem vai se transformando e revelando seus grandes tesouros. Foi assim, gradualmente, que fui entendendo o território por onde tava passando. Aqui está o que encontrei pelo caminho:
1. Santuário Los Flamencos (Camarones): a porta de entrada da viagem

A aventura pelo deserto começa bem perto de Riohacha, no povoado de Camarones. Ali fica o Santuário de Fauna e Flora Los Flamencos, uma reserva de lagoas salgadas e manguezais que serve de refúgio pra centenas de flamingos rosados.
Ali, fiz uma pequena travessia numa canoa artesanal, guiada por um morador local. De qualquer forma, ele conhece cada curvinha do manguezal.
A experiência é linda. A gente ouve apenas o som do remo e pode observar os flamingos bem de perto, no habitat deles! Vale lembrar: os flamingos são migratórios, então a melhor época pra encontrá-los em grande número por ali é entre outubro e maio.
Nem toda travessia inclui essa parada, mas é possível ir por conta própria, como eu fui, ou com agência. Veja aqui mais detalhes.
2. As Salinas de Manaure: o mar virado sal

Já na travessia, a caminho entre Riohacha e Cabo de la Vela, o 4×4 passa por Manaure, cidade guajira conhecida pelas suas salinas.
Uma das maiores produções de sal marinho da Colômbia, que sustenta boa parte da economia local há várias gerações, inclusive de famílias Wayuu.
A paisagem ali é quase surreal: extensas piscinas de água salgada em tons que vão do branco ao rosa, dependendo da concentração de sal e da luz do dia, com montanhas de sal empilhadas à beira da estrada, esperando pra ser transportadas. Não é raro avistar flamingos também por ali, já que a salinidade da água atrai o mesmo tipo de vida que encontrei no Santuário Los Flamencos.
3. Cabo de la Vela: o primeiro contato com a Alta Guajira

Cabo de la Vela é um vilarejo de pescadores localizado na Baixa Guajira, o primeiro grande ponto de parada na travessia rumo à Alta Guajira, onde dormi a primeira noite da travessia.
Pra os Wayuu, é conhecido como Jepirra, e tem um significado espiritual importante: segundo a cosmovisão do povo, é o lugar por onde as almas partem em direção ao mundo dos mortos, entrando pelo mar. É um dos motivos pelos quais o Pilón de Azúcar, logo ali perto, é considerado sagrado.
É um vilarejo simples, sem estrutura de resort, onde a energia elétrica é limitada e as hospedagens são as próprias rancherías Wayuu (em rede ou então em quarto simples).
4. Pilón de Azúcar: o cerro sagrado dos Wayuu

Pertinho do Cabo fica o Pilón de Azúcar, ou Kamaici, na língua wayuunaiki, uma colina rochosa de formato cônico bem na beira do mar. A subida a pé leva cerca de 15 minutos e o vento lá em cima é tão forte que dá a sensação de que você vai sair voando.
A recompensa é uma vista que resume o deserto inteiro: de um lado, a imensidão alaranjada da terra; do outro, o azul profundo do Caribe. Mas o mais lindo, acredito eu, não está na vista, e sim no significado. Como comentei, pra os Wayuu, esse é um lugar sagrado, por onde as almas dos mortos passam em sua jornada pro além. Subir aquele cerro sabendo disso muda completamente a forma como a gente enxerga a paisagem.
5. Playa Ojo de Agua e o pôr do sol no Faro
A Playa Ojo de Agua é um refúgio de falésias e pedras, onde o mar bate com muita força. Achei uma delícia caminhar e sentir a brisa antes do fim da tarde.
Mas o grande ritual do fim do dia em Cabo de la Vela acontece no Faro. Todo mundo se reúne ali pra assistir o sol mergulhar direto no oceano, pintando o céu do deserto com tons de rosa, roxo e dourado. Como a gente chegou tarde, subimos no amanhecer, que foi igualmente lindo!
6. As incríveis Dunas de Taroa

Em direção ao norte profundo, a gente vai avistando a paisagem até chegar nas Dunas de Taroa. A sensação de chegar ali é difícil de descrever: a gente caminha por imensas montanhas de areia dourada até que, de repente, a duna simplesmente acaba e despenca direto nas ondas do Caribe.
A gente pode descer correndo, caminhando tranquilamente ou então alugando uma prancha de sandboard pra “surfar” a duna até chegar no mar. Achei esse cantinho do deserto simplesmente sensacional!
O contraste entre o amarelo da areia e o azul-turquesa do mar é um dos maiores espetáculos visuais que já vi na América do Sul. Escolhi descer correndo até a água e mergulhei, vivendo assim um dos momentos mais libertadores da travessia.
7. Punta Gallinas: o fim da América do Sul

A linha de chegada da travessia é Punta Gallinas. E é aqui que gosto de inverter o mapa. Chamam Ushuaia, lá no sul, de “fim do mundo”, mas pra mim é justamente onde o Sul começa. Seguindo essa mesma lógica, Punta Gallinas é onde o continente termina.
Chorei quando cheguei aqui, pois marcava o “fim” da minha jornada pela América do Sul, dez anos depois de começar tudo na Terra do Fogo.
Estar ao lado do farol isolado que marca essa última faixa de terra firme dá uma sensação e tanto de estar na borda de tudo. Só que, pro povo Wayuu, esse pedacinho de chão não é uma ponta perdida no mapa, mas é o mundo inteiro.
A região é cercada por baías de águas calmas, como a Bahía Hondita e praias desertas cheias de pedras empilhadas por viajantes que passaram por ali antes da gente. Além disso, há o silêncio absoluto sob um céu absurdamente estrelado à noite.
8. Serranía de la Macuira: o oásis de nuvens no deserto

Esse ponto não visitei, pois fica mais isolado e pede mais dias de viagem. Mas pelo que me explicaram, enquanto o resto de La Guajira é seco e avermelhado, a Macuira concentra um microclima úmido, com vegetação verde e neblina.
Imagino que seja um contraste que parece não fazer sentido geograficamente, mas isso se dá graças à altitude da serra, que intercepta a umidade do mar. É considerada sagrada pelos Wayuu, e o acesso costuma ser mais restrito, geralmente feito com guias da própria comunidade.
Como chegar ao Deserto de La Guajira

O ponto de partida costuma ser Riohacha, capital do departamento de Guajira, acessível por voo direto de várias cidades colombianas, ou Santa Marta, um pouco mais distante, mas bem conectada por ônibus e vans compartilhadas.
Vou incluir a saída de Riohacha, que foi como fiz, mas não necessariamente tua viagem precisa seguir esse passo. Posso te ajudar a planejar essa viagem pela Colômbia através de uma consultoria, caso precise adaptar. E, como você vai ver mais adiante, dá pra combinar essa travessia com outros pontos do Caribe colombiano.
Parte 1: Chegando a Riohacha ou Santa Marta:
- Voo ou ônibus: chegue em Riohacha. Há voos diretos e rotas de ônibus de várias cidades colombianas, como Cartagena, Santa Marta ou Bucaramanga. Da capital, Bogotá, o voo dura 1h40 e custa a partir de R$350, enquanto a viagem terrestre dura cerca de 23 horas por R$250.
- De Riohacha a Uribia: trajeto por estrada, cerca de uma hora, passando pela indústria salineira de Manaure.
- De Uribia pra dentro do deserto: a partir daqui, só em 4×4, pois não existe estrada asfaltada nem transporte regular dentro do território Wayuu, apenas trilhas de areia que mudam conforme o vento.
Parte 2: Como chegar a Alta Guajira
Como o 4×4 é essencial e boa parte da rota não tem sinalização, viajar com guia local é o mais recomendado. O percurso exige não apenas conhecimento do terreno, mas também (e especialmente) das comunidades pelas quais a gente passa.
Existem agências que oferecem esse serviço, e a travessia pode durar até 5 dias. Eu fiz com a Macuira Tours, que pertence a uma família Wayuu em Riohacha.
Outra recomendação, é a Civitatis, que trabalha com operadoras locais de Riohacha e oferece diversos pacotes que podem ser parcelados ou em então em euro ou dólar. Dica da Tia Sula: pagando pela Wise, uma dessas moedas, sai um pouco mais barato.
Duração da travessia pelo Deserto de La Guajira

Os tours saindo de Riohacha ou Santa Marta costumam durar entre 2 e 5 dias, dependendo do quanto do território você quer percorrer.
Quanto mais dias dura a travessia, mais imersão você vive e, assim, mais tempo de convivência real nas rancherías, e a possibilidade de incluir paradas mais remotas, como a Serranía de la Macuira.
Meu tour durou 3 dias e 2 noites, e recomendo pelo menos isso pra quem quer sentir o deserto sem se sentir apressado:
- Dia 1: Riohacha → Manaure (salinas) → Cabo de la Vela (pôr do sol no Faro e no Ojo de Agua)
- Dia 2: Cabo de la Vela → Parque Eólico → Dunas de Taroa → Punta Gallinas
- Dia 3: Punta Gallinas → retorno a Riohacha
Existem várias formas de viver essa travessia. Dependendo do seu perfil de viajante, você pode escolher roteiros que vão além do básico:
- Trilhas Ancestrais: Alguns tours incluem caminhadas guiadas por caminhos históricos, ideais para quem quer entender a geografia do deserto a pé. Saiba mais
- Pesca Tradicional: Se você quer imersão cultural, há opções para acompanhar os pescadores locais na região do Cabo de la Vela e aprender as técnicas que sustentam a comunidade há gerações.
- Navegação em Punta Gallinas: Outros roteiros incluem passeios de barco por ilhotas isoladas e manguezais bem na ponta do mapa, revelando paisagens escondidas.
O tour mais completo dura 7 dias e inclui todas essas atrações que eu mencionei no Deserto de Guajira: Manaure, Santuario Los Flamencos, Cabo de la Vela, Punta Gallinas e Narareth (Parque Nacional Natural Macuira).
Seja qual for a sua escolha, há uma opção perfeita pra você se desconectar do óbvio e conhecer a então a cultura Wayuu com verdadeira profundidade!
Qual escolher?
| Duração | Principais Paradas | Indicado Para |
| 3 Dias / 2 Noites | Cabo de la Vela, Dunas de Taroa, Punta Gallinas | Quem tem tempo justo e quer o essencial |
| 4 Dias / 3 Noites | Inclui Manaure, Cabo, Taroa, Punta Gallinas e + tempo nas rancherías | Quem busca imersão cultural sem pressa |
| 7 Dias | Inclui Parque Nacional Macuira (Nazareth) | Expedição completa, imersiva e remota |
Quando visitar o Deserto de La Guajira

O clima é seco e quente praticamente o ano todo, com temperaturas altas durante o dia e ventos fortes que esfriam bastante assim que o sol se põe.
A região tem duas estações marcadas: a estação seca, que domina então a maior parte do ano e garante estradas mais estáveis pra travessia em 4×4, e a época de chuvas, entre setembro e novembro, que foi quando eu fui. Peguei partes do deserto alagadas e algumas rotas estavam fechadas. Nesse caso, seguimos a Punta Gallinas de barco.
O que levar pra fazer a travessia
É importante estar preparada pro clima e pras condições de um dos poucos desertos tropicais costeiros do mundo, então não se esqueça:
- Roupas leves e de secagem rápida
- Protetor solar (ideal que seja biodegradável)
- Lenços umedecidos (água é recurso escasso na região)
- Óculos de sol e chapéu ou boné
- Chinelo ou papete
- Dinheiro em espécie, em pesos colombianos de valores pequenos, já que não há caixas eletrônicos dentro do deserto
- Proteção pra câmera e celular contra poeira e vento
- Leve alimentos e águas pra distribuir no caminho pra famílias indígenas que não vivem do turismo
Quanto custa a travessia

Os preços dos tours vão variar conforme o roteiro e quantos dias estão incluídos. Recomendo sair de Riohacha, pois costuma ter preços menores.
- Tour compartilhado de 3 dias: a partir de USD 350 – confira
- Compartilhado de 4 dias: a partir de USD 480 – confira
- Tour completo de 7 dias: a partir de USD 940 – confira
Costuma estar incluído nesses valores:
- Transporte 4×4 ida e volta
- Guia local
- Alimentação (peixe e chivo como protagonistas)
- Pernoite em chinchorro (redes) ou quartos simples nas rancherías (fazendas Wayuu)
Como colocar La Guajira no roteiro de viagem pela Colômbia
Vamos combinar: você tá falando com uma das pessoas que mais rodou a América do Sul. São mais de 10 anos, três voltas no continente, varias viagens pontuais e consultorias individuais desde 2018. Especialista em criar roteiros de viagens.
Então, prepara a caneta e o papel que vou te dar algumas ideias de como incluir a visita ao Deserto de La Guajira no roteiro pela Colômbia.
Roteiro Costeiro

Minha primeira recomendação é conectar a travessia com outros destinos do Caribe colombiano, como Santa Marta, por exemplo. Além de ser muito próxima de Riohacha (cerca de 172 km), a cidade oferece experiências perfeitas pra complementar a viagem: Parque Tayrona, Cidade Perdida, praias e contato com comunidades indígenas, especialmente os Kogui.
Minca também fica pertinho e encaixa perfeitamente no roteiro. Já Palomino fica no meio do caminho, e recomendo demais fazer uma parada pra conhecer essa vila caribenha!
Dependendo de quanto tempo você tem, rola pensar em incluir Cartagena no itinerário e conhecer a cultura afro-colombiana numa das cidades mais lindas da América do Sul.
Roteiro dos Vales

Existe uma região no interior da Colômbia que eu gosto de chamar de Cidades Históricas, pois me lembra demais a Estrada Real de Minas Gerais.
Assim, a viagem pode começar em Bogotá e subir por Boyacá e Bucaramanga, passando por destinos icônicos e ainda muito pouco conhecidos pelos brasileiros. Você passaria por lugares como Villa de Leyva, Tunja, San Gil, Valledupar, até chegar a Riohacha. Essa é uma viagem mais elaborada, então precisa planejar muito bem os deslocamentos.
Enfim, existem várias formas de encaixar essa travessia no seu roteiro pela Colômbia. Mas, diferente de Cartagena, Santa Marta ou de Villa de Leyva, que são destinos mais tradicionais nos roteiros colombianos, La Guajira é uma experiência mais exclusiva e logisticamente exigente. Então incluir esse destino na tua viagem pede um pouco mais de planejamento.
Posso te ajudar a montar o roteiro ideal pra você, pensando nos dias que tem disponíveis e no que está buscando viver. Basta preencher o formulário de consultoria e eu entro em contato pra gente marcar uma videochamada. Te ajudo a planejar não só o itinerário dia a dia, mas também os deslocamentos, as pernoites, a bagagem, apps importantes e muito mais!
Relato pessoal: vivenciando o Deserto de La Guajira em 4×4

Cheguei à Guajira em novembro de 2024, mas comecei minha jornada pela América do Sul dez anos antes, na Terra do Fogo, no extremo sul do continente, em maio de 2014. Uma década depois, fechei esse ciclo bem aqui, no ponto mais ao norte de tudo. Não dá pra pensar numa coincidência simbólica maior do que essa.
O movimento do 4×4 no terreno sem estrada marcada foi só o começo. A gente passou por trechos em que a única referência do motorista era o próprio conhecimento, porque não havia nada de placa, nada de sinal de celular.
No caminho, a gente encontra moradores locais que não vivem do turismo e que aguardam na estrada por doações. Então, em Uribia, comprei pacotes de 250g de arroz e de macarrão, água e bolachas pra distribuir no caminho. Dá um tanto de tristeza entender que mesmo dentro de uma sociedade originária pode haver diferença social e me ajudou a refletir ainda mais sobre a humanidade.
Um dos momentos que mais gostei foi de ver pela primeira vez a imponência das Dunas de Taroa despencando direto no mar. E mergulhar depois foi uma experiência bem gostosa também. Mas nada se compara à emoção de ter chegado no ponto mais extremo do norte da América do Sul, o Faro de Punta Gallinas, onde tomei a decisão de que viajaria pra África no ano seguinte (e realmente, em 2025 visitei Cabo Verde e Marrocos).
Durante minha aventura, dormi em chinchorros, a rede tradicional Wayuu, ao longo dos três dias de travessia entre Cabo de la Vela e Punta Gallinas. Sob um céu estrelado, eu dormia ouvindo o vento caribenho formar ondas a noite toda.
Senti a escassez de água que marca a região, mas também a acolhida das famílias que nos receberam em suas fazendas.
Uma fogueira, uma conversa, uma história de resistência

Numa dessas noites, sentados em roda ao redor da fogueira, uma mulher Wayuu começou a contar sobre os costumes do próprio povo, como o encierro, período em que meninas, assim que menstruam, cortam o cabelo bem curto e se isolam pra aprender funções domésticas e espirituais, e a poligamia, permitida aos homens dentro da cultura.
Confesso que, à primeira vista, alguns desses costumes me pareceram machistas, segundo minha própria cultura. Mas, em vez de dar minha opinião, que ninguém pediu, preferi perguntar como as próprias mulheres enxergavam isso.
A resposta dela foi um dos presentes mais bonitos que recebi em dez anos de estrada. Ela contou sua própria trajetória de resistência dentro da tradição e como hoje cria a filha de um jeito diferente do que ela mesma viveu por um período.
O resumo é que ela não completou o ritual com ajuda da avó, mas foi renegada pelo restante da família e acabou encontrando acolhimento na família do menino de quem ela gostava e com quem se casou com acordos monogâmicos.
Isso reforçou algo que carrego como princípio em toda viagem: cultura é importante demais pra ser julgada só com olhos de quem vem de fora. Posso ter minhas próprias opiniões sobre mudanças que considero necessárias, mas essa decisão não é minha, nem de ninguém de fora. E saber que existem mulheres (e homens) Wayuu pensando de forma progressista dentro da própria tradição me fez admirar ainda mais a força desse povo.
América do Sul é meu Norte Sul
Essa travessia me marcou profundamente. “Fechar” dez anos de América do Sul no chão mais ao norte do continente, entre dunas, chinchorros e a história de uma mulher que resiste e reinventa sua própria cultura por dentro, foi, de alguma forma, um jeito perfeito de “encerrar” um ciclo.
E deixei as palavras fechar e encerra entre aspas, porque a verdade é que apesar de eu ter começado a viajar por outros continentes, a América do Sul será sempre o meu norte sul. Sigo viajando por aqui!













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