Machu Picchu, a exploração financeira e o submundo do turismo

Estive em Machu Picchu na última segunda-feira, dia 12 de outubro.

Planejei essa visita por muitos anos e era um dos lugares que mais queria conhecer. Aliás, quem não espera conhecer Machu Picchu? Mochileiros e afortunados, casais e famílias com crianças e idosos… Todo mundo quer ver de perto uma das maiores “descobertas” depois da colonização das Américas.

A pena é ver como esse Patrimônio Cultural da Humanidade se tornou uma fábrica de dinheiro.

Não espere ler nesse texto dicas e informações para chegar até lá. Para isso leia aqui. Agora eu preciso falar sobre a exploração financeira e o submundo do turismo de Machu Picchu.

Eu estava no hostel conversando com uma portuguesa que me disse: “eu não vou conhecer Machu Picchu. Não posso lidar com essa extorsão financeira. Vim até aqui e vou voltar para o México (onde ela mora) sem gastar meu dinheiro lá. ”

Achei que ela estava exagerando. Caro eu sempre soube que era, afinal é um dos lugares mais visitados e desejados da América do Sul. O Rio de Janeiro é caro. O Atacama é caro. Mas Machu Picchu é além de caro. Descobri isso aqui.

Machu Picchu - exploração financeira

Exploração financeira em Machu Picchu

Sabia que haviam várias formas de se chegar até lá e escolhi a segunda mais barata, que é ir através da hidroelétrica.

Para ficar mais claro para quem não conhece ainda MP, a cidade Inca está no topo de uma montanha a cerca de 110 km de distância de Cusco. Para chegar até às ruínas, é preciso chegar ao povoado de Machu Picchu (ou Águas Calientes), depois subir a montanha.

Machu Picchu - exploração financeira

Veja as sete maneiras de chegar em Machu Picchu gastando a partir de 1 dólar

A exploração financeira está em todos os detalhes. Vou dar dois exemplos antes de começar: Cataratas do Iguaçu. Um estrangeiro de fora do Mercosul paga cerca de R$56 (USD 15) para entrar no parque. As quedas estão um pouco distantes da entrada, por isso no lado brasileiro há um ônibus ecológico de dois andares que levam os visitantes até lá, sem cobrar nada mais por isso. Pode-se embarcar e desembarcar quantas vezes for necessário nas várias paradas do parque.

Outro exemplo: Cristo Redentor. Quando fui a entrada custava R$62 (USD 17). O trem de ida e volta até os pés da escultura mais pop do Brasil estava incluso nesse valor.

Voltando a Machu Picchu, a entrada custa s./128 (USD 40) por estrangeiro não estudante e não andino. Isso é só a entrada. Para chegar a porta de entrada você tem duas opções – ou sobe quase 2 mil metros de escada ou paga USD 12 por uma van ecológica. Para descer? Mais USD 12. Um idoso, uma gestante, uma criança, que não podem se esforçar em 1h30 ou mais na escadaria deve pagar USD 24 (quase R$100) para visitar às ruínas, além do valor da entrada, que sai USD 64 o total.

Acha pouco? Vamos para uma etapa anterior. Como chegar até Águas Calientes. O trem de Cusco até o povoado de Machu Picchu custa de UDS51 na classe econômica a USD 398 na primeira classe. Duas horas de viagem. Engraçado! De Uyuni a Oruro, ambos na Bolívia, eu paguei o equivalente a USD 7 por um trem de oito horas de viagem.

Machu Picchu - exploração financeira

Quer pagar menos? Caminhe! Uma alternativa para quem quer conhecer Machu Picchu, mas não tá nadando em dólares é chegar caminhando pelo trilho do trem, que custa de USD 2 a USD 22 (veja aqui os valores).

Para pagar USD 2 é preciso ir até Ollantaytambo e caminhar por 8 horas.

O percurso de van leva no mínimo 5h30 numa estrada cheia de curvas. Depois disso é preciso andar por 2h30 até a cidade de Machu Picchu.

Vamos à diferença financeira:

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USD 40 entrada + USD 51 trem ida + USD 55 trem volta + UDS 24 van ida/volta = USD 170 (R$651)

USD 40 entrada + USD 22 van ida/volta = USD 62 (R$238)

A diferença é de R$415 reais na cotação de hoje (USD 1 – R$ 3,85).

Uma garrafa de água de 2,5l em Cusco custa 2,50 soles. Sabe quanto está uma garrafa de 625 ml na entrada da cidade inca? 8 soles.

Um prato de comida com entrada em Cusco custa a partir de 4 soles. Sabe quanto está na entrada da montanha? USD 40 ou 130 soles.

A maior parte das casas de câmbio trocam apenas dólares e euros. Ficou claro para você quem é o público aqui, né?

O serviço do guia, que deveria ser valorizado, custa 20 soles por pessoa em um grupo com 15 ou 20 pessoas ou 120 soles particular.

O submundo do turismo de Machu Picchu

Pode parecer um termo exagerado, mas me senti clandestina ao visitar Machu Picchu de forma mais barata.

Machu Picchu - exploração financeira

Primeiro peguei uma van em Cusco. Levei 6h30 para chegar na Hidroelétrica e vomitei muito no caminho.

Eu já tinha lido na internet, num post de 2013, um blogueiro falando a seguinte frase: “fiz esse percurso em 2011, acredito que hoje haja sinalizações, porque tá mais comum”. Pois é, amigo blogueiro. Não há sinalização em 2015.

Na verdade, há barreiras em uma das passagens das trilhas. Exatamente na que todo mundo faz, porque a outra está escondida e apenas os locais conhecem.

Quando a gente sai no trilho do trem não há nenhuma indicação se você deve seguir para direita ou para esquerda. Quase no final a trilha há dois caminhos, mas não há uma indicação de qual você deve seguir (depois faço um post com as dicas e indicações). Quando acaba o trilho não há indicação para que lado está a cidade. Não há nenhuma indicação de nada! A gente apenas segue o fluxo.

Para subir às escadas é preciso chegar ao portão e a galera começa a formar a fila às 4h. Não havia nenhuma iluminação, nenhuma indicação. Só consegui encontrar onde estava a porta de entrada para as escadas, porque haviam vários mochileiros indo para o mesmo lugar. Ah, e porque os locais indicam qual caminho seguir.

Já subindo as escadas para a cidade inca, as vezes se atravessa por onde as vans de USD 12 passam. Havia chovido antes. Elas passaram quase voando e jogando barro em quem estava ali, perrengando. Nessa parte a indicação que há são as setas para você continuar nas escadas e uma placa no início dizendo quantos metros você vai subir (1700 e pouco).

Machu Picchu - exploração financeira

A administração de Machu Picchu não está dando bola para quem está economizando. Estão interessados apenas em quem pode pagar por tudo. Se for em dólar, então!

Na nossa van havia uma família francesa. Era o pai a mãe e 3 filhos. As crianças, junto com seus pais, foram andando da Hidroelétrica até Machu Picchu. Subiram na van de USD 12 e desceram pelas escadas. Mesmo eles – com seus euros e as 3 meia-entradas das crianças – não podiam pagar a forma mais cômoda e rápida para conhecer a cidade perdida dos Incas. Quem dirá a gente, que ganha em real e é mochileiro!

IMPORTANTE: não estou insinuando para você não ir! Muito pelo contrário. Machu Picchu é sensacional e eu fiquei muito feliz com a oportunidade de poder conhecer uma das Maravilhas do Mundo. Isso foi apenas um desabafo sobre a exploração financeira.


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MACHU PICCHU e a exploração financeira

  • escoladomundoblog (9 de março de 2016)

    Muito bom o post! Quando fui para Cuzco/Machu Pichu fiquei pensando que os brasileiros são muito bobos e que deveriam, assim como eles, cobrar o ingresso mais caro para quem é estrangeiro, porque quando vamos pra lá não temos vantagem nenhuma (exceto pra quem tem ISIC mas no Peru se vc tem mais de 25 anos eles não aceitam).

    • Aline Rodrigues (9 de março de 2016)

      Pois é! É que Machu Picchu merece ser visitada, mas fica bem claro que os brasileiros não são o público que eles querem, mas é o que mais tem por lá: brasileiros.

  • angiesantanna (10 de março de 2016)

    também fiquei horrorizada com os valores de tudo…se eu não tivesse pesquisado bem, não teria ido ao Peru, pois só o trem, ingresso e um hostel que tinha encontrado super caro..ia dar 700 reais pra cima!!! no fim gastei 55 de van + 128 do ingresso + 30 do hostel + 40 do bus pra subir (se não eu morria haeuaheu) valeu a pena…mas não volto!

    • Aline Rodrigues (10 de março de 2016)

      Também gastei pouco, mas andei que nem camelo, subi mais escada que todo o resto da minha vida somado hahahahahahaha Ou era isso ou era gastar o rim pra ir de trem+van. Mas eu nem tinha a grana do rim ?

  • Sal Silva (1 de julho de 2017)

    Turismo altamente exploratório,até tinha grana, mas fiz o máximo para economizar e gastar umas calorias.rs.Resolvemos (eu e esposa),irmos de taxi até aguas calientes(quando soube o preço do Trem de ouro),no meio do caminho comecei a passar mal,muitas curvas,já tinha me arrependido quase vomitei rs.A noite caiu e fomos fazer a trilha da Hidreletrica 14km,no nosso taxi tinha um casal, ela Francesa ele Belga,e assim fomos juntos(com uma lanterna fraca imagine como foi Dificil achar os trilhos lá em cima hehe),a Francesa(prepotente),saiu em disparada deixando seu Par e nos para tras,depois o Rapaz seguiu(até tentou nos ajudar),mas a Francesa idiota atrapalhou tudo.Ficamos perdidos,a noite não víamos os pontos de entrada em aguas Calientes,minha esposa caiu no chão 3 vezes(cansada),seguimos.passamos o túnel e chegamos,Ufa que aventura.Subimos e descemos Matchu Pichu pelas escadas,minha esposa quase morreu kkkkk.Aloprei e voltei de trem revoltado com o preço exploratório daquele trem vagabundo kkkk.Mas valeu,nao tem outra opção,ou é explorado ou não conhece.valeu.

  • JOSE LUIS SARAVIA OCHARAN (15 de julho de 2017)

    Eu concordo e discordo. Sou peruano tá, a questão sempre foi assim até para nós mesmos. por exemplo se vc é de cusco tem um valor de ingressos a museus e MP e outros lugares diferentes para quem é de fora do cusco e do mesmo Peru, e daí há tarifas para gringo visse. Para chegar lá pode ir de carro o combi até a hidroelétrica ou pela trilha inca, pegar combi com povo local, tem um monte de opções baratas para chegar. A questão mano é assim, vou ser franco com vcs os brasileiros que tem outra forma de ver a cultura ancestral ok. Nos temos um monte de ruínas grandes não só é Machu Pichu, é tipo gringo que vai pro Brasil, vai pro Rio e tal, sacou! então vai ser um lugar de exploração turística assim como cusco e demais arredores. Por outro lado, essa grana deve cuidar os parques nacionais e lugares ancestrais (cultura inca e quechua), dar manutenção e permitir a manutenção de nossos costumes, aqui eu concordo! Isso passa aqui, por exemplo na serra dos órgãos quando vc faz a travessia petrópolis até teresópolis, tem valores que pagar e vê que há abrigos, etc. Isso acho que é normal, O Cristo, olha o Cristo, caro tbm. (Pessoalmente gosto mais do nordeste brasileiro tá). Então a questão, é quanto realmente se destina desse valor para as ações que acabo de comentar viu. Por exemplo rolou um caso de uns chilenos que fizeram tipo grafiti numas ruínas, foi tipo uma brincadeira, mas contra nosso patrimônio histórico e mais coisas assim. O que estava acontecendo era isso, que tinha monte de gringos indo pra lá, isso afeta também quanto a desgaste e capacidade de manutenção (meu enfoque vai por uma lado de turismo sustentável) desses lugares, por isso que decidiram ser mais estritos e cada certo tempo regular as tarifas. Outra coisa que não sabem, Cusco, tem uma ideologia bem autóctone, não tão aberta como o Brasil ou outros países, digamos tipo conservadora, que mantem suas tradições (por exemplo ele não aceitam o ingresso de grandes mercados tipo Mundial ou Bom Preço, nem a instalação de Shoppings mega grandes sabe, se alguém vai fazer alguma construção tem que pedir licença ao INC para ver se é viável construir porque lá há monte de múmias, artefatos, ruínas, etc. ) além de ter sido o centro do Império Inca e de ainda existir uma nobreza inca. Questões que eles mesmos manejam, só que muitos dos políticos e governantes locais têm seus próprios interesses mais ainda quando estão influenciados pela capital Lima, e digamos não destinam adequadamente as receitas turísticas para programas de manutenção e tal ou outros programas relacionados. Aí dá para perceber que é escroto a cobrança e tal!! por outro lado, há outras regiões norte do Peru, Centro, que há ruínas e os governos regionais estão querendo fazer um desenvolvimento turístico (falo de culturas e períodos pre incas) (aqui gringo não sabe não rsrs) só que um Turismo eu acho predatório, tenho medo disso, claro para quem é mochileiro, massa! só que esse mochileiro vai aos pouquinhos tbm abrir portas para outro perfil do turista, e claro com o interesse local, mais tipo interesses econômicos e corruptos, vai dar merda!! Agora temos uma caso de duas culturas pre incas que por falta de investimento (problema desde o governo central) e pelas poucas receitas do governo local, não tem planos adequados de manutenção um saco! ou para fazer maiores pesquisas relacionadas e descobrir mais, etc. Lembrar que Peru é um país pobre quanto a temas capitalistas e de desenvolvimento econômico, Brasil está bem mais na frente, e como américa do sul está no mesmo esquema de governança, estamos fodidos visse!! Também Brasil investe mais em pesquisas, caso contrario do Peru. Embora, temos uma riqueza histórica, tradicional e cultural forte demais, idiomas dialetos locais, etc! Só que infelizmente tamos ferrados pelos governantes de merda, que muitas vezes não facilitam bons programas de cultura e turismo sustentável dando facilidades ou ajudando os distintos perfis dos turistas. É isso. É complexo sim. É caro sim. Mas existe vários fatores que devemos entender e compreender. Eu moro no Rio há quase 4 anos, já fui para outros estados e entendo a problemática do Brasil e tbm esse lado turístico de algumas regiões que na real não se aplica aos demais estados. Aqui em Rio é caro demais, mas sabendo procurar direitinho você consegui tudo mais barato, aqui o consumo é demais, etc. mas se controlando e não sendo indiferente você vai no equilíbrio. Mas Recife, Natal, Bahia, que eu gosto, é totalmente diferente. É isso. Espero que no futuro essas questões turísticas mudem. Abraços.

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