Relato de uma carona de 1770 km – 5 dias de Santarém a Cuiabá

Uma semana muito louca, com noites dormidas nos mais diversos lugares, reencontros, medos e muita lama.

Trecho da transamazônica e da BR 163 vergonhosa, que diante da chuva causou filas com centenas de caminhões.

Esse é o meu relato sobre os 1.770 km de carona que percorri de Santarém, no Pará, à Cuiabá, no Mato Grosso.

Carona no Brasil

Estávamos em Alter do Chão, uma vila de Santarém. Depois de 35 dias no paraíso era hora de partir e seguir viagem.

Queríamos chegar a Chapada dos Guimarães, para isso precisávamos chegar a Cuiabá. O valor da passagem, R$400 por pessoa, nos deixou sem opção: vamos caronar!

Era o domingo depois da virada do ano, por isso íamos tentar com os carros que estavam em Alter com placas do Mato Grosso. Mas soubemos também de um posto de gasolina desativado onde os caminhoneiros descansavam entre uma carga e outra.

Estava um sol danado e a mochila pesava ainda mais nessas condições. Não aguentava mais caminhar e resolvemos levantar os dedos e a plaquinha em um retorno, onde todos deveriam diminuir.

Um rapaz parou o carro para falar do posto. Nos deu carona até lá e adiantou demais nosso lado.

Chegando no posto fomos recebidos com muita atenção, como se estivéssemos visitando um amigo. Acontece que nesse posto há alguns caras que limpam os caminhões e ganham uma grana. Passam o dia ali, jogando dominó e bebendo pinga.

Um deles agenciou nossa carona. Falou com os motoristas e disse que um deles partiria no dia seguinte para Guarantã do Norte, no Mato Grosso, bem na fronteira com o Pará. Era com o Maurílio.

Carona no Brasil - De Santarém a Cuiabá

Esse é Maurílio

Fomos para um hotel de beira de estrada e na manhã seguinte voltamos ao posto. Chegando lá encontramos dois irmãos argentinos. O Juan e a Gisela, com quem trabalhei no restaurante Mãe Natureza, em Alter do Chão.

Eles também buscavam carona e precisavam chegar em Buenos Aires. O cara do dia anterior havia agenciado a mesma carona.

Passamos a manhã toda esperando o Maurílio voltar do descarregamento que havia ido fazer. Quando ele voltou, logo depois do almoço, nos disse que levaria os quatro, mas que seria na quarta-feira, porque havia um carregamento para fazer. A parte boa é que ficaríamos em Novo Progresso, um pouco mais adiante.

Lá fomos nós de volta ao hotelzinho.

Dia 1 – De Santarém a Trairão

Na quarta voltamos e esperamos até a hora do almoço. Depois que a nota chegou, fomos nós quatro, o Maurílio e o Eduardo, um menino de 17 anos que precisava acompanhar a carga até o destino. Éramos seis no caminhão!

Paramos para dormir em Trairão. Amarramos as redes entre duas carretas: a do Maurílio e a de um caminhoneiro que não havia nos visto. Isso significava tirar as redes correndo, caso o motorista ligasse o caminhão a qualquer hora.

Acontece que os insetos estavam jantando a gente. Tava insuportável ficar de saco de dormir, pelo calor. Decidimos dormir no chão mesmo e fomos todos para debaixo da loja de conveniência do posto.

Carona no Brasil - De Santarém a Cuiabá

Pareço mendiga, mas sou só uma mochileira

Quando pegamos no sono, uma chuva forte começou a cair. Eu estava dormindo perto do cano quebrado e minhas coisas molharam bastante. Que raiva!

Depois de se ajeitar começamos a conversar, o Rodrigo e eu, e a rir das nossas desgraças. Isso foi até um pouco mais de 3h, quando decidi dormir.

Dia 2 – De Trairão a não sei onde

Acordamos perto das 7h e fomos tomar café no restaurante ao lado do posto. Ficamos horas ali, porque o pneu do caminhão do Maurílio tinha furado a noite.

Às 11h partimos os 6 pela BR 163, que dá acesso também a Transamazônica.

Perto das 14h, todos morrendo de fome, nos deparamos com uma fila de caminhões. Era impossível ver a quantidade na frente e atrás de nós estava começando a encostar vários outros.

Carona no Brasil - De Santarém a Cuiabá

Olha a fila de caminhões

Com fome e entediados, esperamos por cerca de duas horas ali. O Maurílio joga a bomba “Se não chover mais, é capaz que fiquemos aqui por mais dois dias”.

O Juan saiu para ver como estava a situação e voltou dizendo que havia contado 54 caminhões á nossa frente. Disse que apenas caminhonetes e caminhões com tração conseguiam subir o morro de lama. Sugeriu que tentássemos seguir com outras caronas e topamos.

Nos despedimos do Maurílio e do Eduardo. Desejamos que tivessem sorte e o Maurílio nos disse que s nos encontrasse, nos levaria até onde fosse.

Paramos Hilux e outras caminhonetes pedindo carona, mas nada havíamos conseguido. Seguimos a pé, com as mochilas nas costas e as botas enlameadas.

Enquanto seguíamos os motoristas gritavam para que tivéssemos força. Ganhamos até uma Coca-cola no caminho. Tava quente e foi bem vinda, mesmo não estando gelada.

Uma caminhonete cheia de botijões de gás  parou ao nosso sinal e disse que só andaria cerca de 8 km, até uma vila. Topamos, porque a fome estava impossível. Era mais de 16h!

Carona no Brasil

Los hermanos Juan e Gisela

O problema é que só havia espaço perto dos botijões. Vamos! Os hermanos foram na frente, segurando na grade de madeira e apoiados sobre os botijões. O Rodrigo e eu fomos sentados na parte de trás, perto das mochilas.

A caminhonete seguiu rápida para não atolar. Nossas bundas flutuavam e batiam junto com os botijões. A lama subia e atingia a todos, especialmente à Gisela.

Em poucos minutos chegamos e comemos. A mim não adiantou! Se fico muito tempo sem comer, passo mal. Vomitei todo o “almoço”, por isso continuava com o estomago vazio.

Depois disso, o Rodrigo e o Juan foram parar os caminhões com tração que conseguiram passar. Um motorista disse que só poderia levar dois e fomos nós com o Marabá.

Nos despedimos dos companheiros de carona, desejamos sorte e seguimos. O Marabá não iria chegar a próxima cidade, porque pararia para dormir depois das 20h e depois iria só até a empresa. Mas iríamos tentar alguma coisa no posto onde parasse.

Esse motorista não era calado e prudente como o Maurílio. Era falador. Ora falava com a gente, ora parava o caminhão para falar com os motoristas que estavam em outras filas quilométricas. Era rápido e dava medo.

Chegamos a um posto numa cidadezinha que nem sei o nome. Falamos com o dono da borracharia e ele nos permitiu amarrar as redes quando fechasse.

Tentei comer, sem sucesso! Estava completamente faminta, mas não queria comer nada, porque ainda estava enjoada. Chorei, arrependida de estar ali, passando por aquilo tudo.

Dormimos ao lado de vários cães, um sapo gigante e um besouro quase do tamanho do sapo. Ali amanhecemos às 4h, porque o Rodrigo já havia conseguido carona com um amigo do Marabá.

Dia 3 – De não sei onde à Fronteira com o Mato Grosso

O Jackson era falador, mas tinha ideias mais legais. Adoramos conversar com ele, que nos levaria até Novo Progresso. Dali, sua mulher e filho seguiriam com ele até Sinop, por isso não poderia nos levar até mais adiante.

Em poucas horas estávamos lá. O Jackson nos levou até a rodoviária, mas os preços ainda eram altos: R$295 por pessoa até Cuiabá.

Carona no Brasil

Comemos, finalmente, e seguimos para a rodovia para tentar outra coisa. Fomos até um posto de gasolina para abordar os caminhoneiros. O problema é que muitas transportadoras, onde os motoristas trabalham, estão localizadas em Novo Progresso, e isso intimida os caras, que são proibidos de dar carona.

Nossa sorte foi ter encontrado o Maurílio! O Eduardo voltaria a Santarém dali e o Maurílio seguiria sozinho. Nos ofereceu carona e, claro, aceitamos.

Tivemos que esperar a descarga acontecer. Ficamos das 10h às 17h sentados em uma lanchonete com wi-fi esperando por ele. Ali falamos com os hermanos pelo Facebook. Eles já estavam indo para Sinop, bem mais adiantados que a gente. Conseguiram uma carona longa e em breve poderiam estar em casa com os pais.

A descarga terminou e seguimos com o nosso amigo calado Maurílio. Ele iria até Sorriso para tentar alguma carga nas transportadoras.

Seguimos bastante e dormimos antes de passar a fronteira. Não chegávamos nunca ao Mato Grosso! Caramba.

Carona no Brasil

Armamos nossas redes em duas carretas, mas dessa vez o outro motorista estava sabendo de nós dois. Era a noite mais estrelada que já vi na minha vida. O Atacama e Alter do Chão perderam feio para aquele céu. Uma linda noite fria, perfeita para o saco de dormir. E dessa vez deixamos os repelentes com a gente e não dentro do caminhão.

Dia 4 – da fronteira PA – MT a estrada de Cuiabá

Perto das 4h fomos acordados pela chuva e tivemos que sair correndo. Sorte que havia um restaurante ali. Como estava fechado dormimos nos bancos do lado de fora.

Às 7h chegaram os funcionários para limpar tudo, mas nos deixaram dormir numa boa. Ainda bem!

Depois de tomar café seguimos com o Maurílio até Sorriso, onde tentou sem sucesso uma carga. Seguimos então até Sinop. Era 13h e fomos almoçar enquanto ele buscava trabalho nas transportadoras.

O Maurílio conseguiu! Mas iria carregar apenas no dia seguinte. Não sabia se conseguiria partir no domingo ou na segunda. Disse que iria buscar a carga e que, caso não conseguíssemos nada, nos levaria até Cuiabá, porque sua entrega era em Uberlândia.

Pegamos nossas coisas do caminhão, nos despedimos do Maurílio e resolvemos procurar nova carona. Começou a chover e o Rodrigo já não aguentava mais falar com os caras. Eu não tinha muita coragem, por ser mulher.

A rodoviária de Sinop era bem longe, por isso nem cogitamos ir até lá. O negócio era passar por cima da vergonha e do cansaço e conseguir outra carona.

Passou um jovem magricela por nós com uma nota na mão. Como já estávamos super entendidos do assunto sabíamos que ele partiria. Falei: “Digo, fala com esse grilo aí, porque ele vai levar a gente”.

Dito e feito! O Rodrigo conseguiu carona até Cuiabá! Estava saindo naquela hora, perto das 17h. O nome do nosso último amigo caminhoneiro é Rangel. Gente boa, mas maluco que dá medo.

O Rangel parou em um posto perto das 20h para tomar um banho e comer. Pagou nosso banho, mesmo a gente insistindo que não precisava. Terminamos antes dele e fomos comer, porque pensamos que ele cozinharia no seu caminhão. Compramos um refri para retribuir o banho.

Ele apareceu na lanchonete, comeu ali também e levou a Coca para o caminhão. Tomou uma pilula de rebite e seguiu numa pressa maior que a do Marabá.

Nesse trecho, a BR 163 é esburacada, mesmo sendo privatizada. Cada vez que o caminhão passava num dos buracos meu coração acelerava. Teve uma hora que eu quase cai, porque estava sentada na cama dele e ali não há sinto de segurança. Resolvi deitar, com a permissão dele, é claro, porque assim o tombo seria menor caso alguma coisa acontecesse.

Carona de Santarém a Cuiabá - Brasil

Ele colocou mais dois rebites na coca e bebeu. Ficou meio loucão. Acabei adormecendo.

Quando acordei, perto das 23h, ele estava de touca e ouvindo funk. Fiquei assustada. E se ele nos apontasse uma arma e nos mandasse descer no meio da estrada a essa hora? Fiquei tensa e seguia as mãos dele com os olhos.

Dormi de novo. Quando acordei ele estava ouvindo música eletrônica. O Rangel era bem eclético: de Slipknot a sertanejo dos mais antigos, com mais cara de caminhoneiro.

Dia 5 – da estrada de Cuiabá a entrada da cidade

Começou a chover quando chegamos em Cuiabá e já era 3h ou 4h. Ele disse que não nos deixaria àquela hora na chuva por isso iriamos dormir um pouco. Parou num posto e nos cedeu a cama dele. Dentro da cabine há dois ganchos para uma rede especial. Dormimos cada um com a cabeça para um lado e ele sobre a gente na rede.

Às 7h acordei de calor. Tava insuportável. Enquanto tentava me abanar acordei todo mundo.

Fomos escovar os dentes e quando voltamos o Rangel estava preparando um cafézinho preto.

Entramos novamente no caminhão e seguimos alguns minutos até a entrada de Cuiabá. Ele nos deixou ali e seguiu para Urberlândia também.

Enfim havíamos chegado no nosso destino! Era domingo, oito dias depois de ter saído de Alter do Chão e 5 depois da cidade de Santarém.

Em meio a corrida de Reis, a segunda maior do Brasil, seguimos rumo à Chapada dos Guimarães, nosso último destino turístico do Pé no Mapa.

 

 

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7 comentários sobre “Relato de uma carona de 1770 km – 5 dias de Santarém a Cuiabá

  1. Caramba Aline, eu me acho todo turistão, mas quando leio uma aventura dessa, vejo que estou leguas longe, a parte que eu mais compreendi foi do seu choro e questionando PORQUE? kkkkk

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