Assédio contra mulheres em outros países

O assédio nas ruas ultrapassa fronteiras

Parece que colocar os pés para fora de casa é uma licença para que qualquer um fale o que quiser para nós, mulheres. Desde um simples “bom dia” a palavrões e termos constrangedores.

No Brasil estou acostumada (mas não conformada) com as contadas que ouço e muitas vezes revido. Digo que não dei liberdade, que não é necessário expor seus pensamentos, que considerava sua cantada um abuso… Tento demonstrar que não gosto.

Mas não soube lidar com as cantadas que recebi ao longo dos 80 dias que passei pela América do Sul. E detalhe: acompanhada do meu marido.

Cantada nas ruas em vários países

A primeira vez foi em Buenos Aires. Estava com o mochilão nas costas, de calça, blusa de frio, bota de trekking e cabelos presos. A calçada era estreita e o Rodrigo caminhava na minha frente. Eu estava cansada, porque estávamos indo a pé do bairro Palermo ao porto, em Puerto Madero. Um cara desviou do Rodrigo, por causa do caminho apertado, e quando passou por mim emitiu um som e disse baixinho “linda”. Olhei para trás, porque não sabia se havia escutado certo. Ele estava olhando com os olhos semicerrados, como quem fosse seduzir alguém.

Ele falou baixo pra que meu marido não escutasse, mas eu tinha que ouvir.

Depois foi em Montevidéu. Eu me afastei do Rodrigo para fotografar em uma das inúmeras praças da cidade. Havia um senhor de uns 70 anos sentado em um dos bancos. Magrelo e de cabelos brancos, desses que a gente quer ajudar a descer as escadas do ônibus. Ao me aproximar ele exclamou com uma voz sussurrada e cantada “Hola, amor. Morena tranquila”. E eu não fiz nada! Não dei nenhuma liberdade a ele. Eu só me aproximei dele (e isso quer dizer 1 metro de distância).

Em La Paz, um bêbado estava gesticulando e falando alguma coisa para mim, que estava de frente para ele. O Rodrigo estava de costas, mas eu contei que o cara tava mandando beijos e me chamando. Meu marido é tranquilo, riu para mim e olhou para trás com cara feia, para intimidar. O bêbado parou de mexer comigo, mas mexeu com uma outra mulher acompanhada que passou na frente dele. Acabou levando dois socos na cara, não que eu tenha achado bom, mas se ela estivesse sozinha ficaria por isso mesmo. Mas e o namorado/marido dela? Bateu por que o cara não respeitou a moça ou por que achou que sua masculinidade estava sendo testada?

Muitos olhares e cantadas se seguiram. A gente até para de contar e até se esquece dos menos vulgares e menos caras de pau.

Entre eles, um vendedor de nem-me-lembro-o-que na praia de Rodadero, Santa Marta (Caribe colombiano). Eu estava saindo do mar e ele me abordou para vender, seguido da minha recusa gentil: “No, gracias (e sorri)”. Ele me olhou de cima a baixo e disse alguma coisa que eu não entendi completamente, mas as últimas palavras foram “su cuerpo”. Que atrevido! Ou será que fui culpada por causa da minha simpatia?

O último foi um senhor, também com uns 70 anos ou um pouco menos. Eu estava saindo da rodoviária de Bogotá, vinda do Caribe. Estava de shorts, bota, blusa e mochila. Esse senhor fixou os olhos nas minhas pernas como se elas fossem dois espetos de churrasco na brasa e ele um animal esfomeado. Seu gesto foi tão absurdo que dessa vez eu soube o que fazer, diferente das outras vezes. Quando ele passou por mim eu parei e fiquei olhando para cara dele, que estava virado olhando ainda para as pernas. Acho que ele percebeu que eu não estava caminhando e subiu, pela primeira vez, os olhos para o meu rosto. O que ele viu foi a minha cara brava. Quando nossos olhos se encontraram eu fiz com a cabeça “o que é?”. Só aí ele se virou e seguiu seu caminho sem me olhar.

Eu fiquei me perguntando: porque esses caras, tão distantes, possuem a mesma postura? É a cultura mundial do estupro!

Olhar e achar bonito é natural. Faço isso com roupas, casas, cabelos, homens e mulheres. Nem por isso eu toco a campainha para dizer ao dono da casa que ele mora muito bem e que teve bom gosto na escolha das cores. Não toco nos cabelos que acho bonitos e digo “Nossa, que bem cuidados. Cê tá de parabéns, hem”.

Fomos abordados por um rapaz em Bogotá que entregava panfletos nos ônibus. O que recebemos pedia para que os homens não se aproveitem de transportes cheios para se encostarem indevidamente nas mulheres. Até as técnicas de assédio são iguais!

Quem disse que esses caras podem falar com a gente? Podem tocar? Podem olhar como olham? De onde surgiu essa cultura tão machista, que nos coloca como um objeto para ser analisado e pontuado ao sair na rua?

Vivi e aprendi muitas coisas nessa viagem e uma delas é que para sofrer assédio não é preciso apresentar passaporte, não. Não existem fronteiras para isso, muito menos idioma.

  • travellikegirls (22 de fevereiro de 2017)

    Aline! Bom dia. Eu vi esse seu post e adorei! Nós somos um blog de viagens que está se tornando um canal para divulgar outros blogs feitos por mulheres, e também histórias de mulheres que viajam sozinhas ou em grupo com outras mulheres! Podemos compartilhar seu trabalho na nossa página? Muito obrigada!

    • Aline Rodrigues (22 de fevereiro de 2017)

      Olá! Que legal o projeto. Parabéns.
      Olha, como o Google puni conteúdos duplicados, acho legal vocês fazerem um texto abordando o assédio sexual nas ruas, colocando um trecho do meu texto e apontando para quem quiser ler o relato completo.
      O que acham?

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